segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O MEU CONTRIBUTO / DEPOIMENTO NO CONGRESSO INTERNACIONAL "FORMAR LEITORES PARA LER O MUNDO"

A LEITURA, PRINCÍPIO DE RACIONALIDADE E LIBERDADE

“La lectura, los libros son el más asombroso principio de libertad y fraternidad”.

Emilio Lledó (2006). Elogio de la infelicidade. Valladolid: Cuatro Ediciones, pp.156-157.

Com este depoimento, tento contribuir para aclarar (1) o que é formar leitores (para ler o mundo), (2) porque é que é importante esta tarefa, (3) que propostas (destinadas a escolas e a outras instituições com funções formativas) se podem fazer para a formação e (4) em que medida a edição de literatura infanto-juvenil contribui para a finalidade pretendida.

1. O que é formar leitores? A expressão “formar leitores” aparece muitas vezes associada às palavras “animação” e “mediação”, sugerindo-se assim que o trabalho de formação é sobretudo de animação da actividade leitora ou até de mediação, como se o educador / formador fosse apenas um instrumento ou alguém que medeia um conflito. Parece-me honestamente que formar leitores é imensamente mais que isto e exige um trabalho de orientação técnica, no sentido pedagógico do trabalho de leitura.
Formar leitores é ensinar a ler, não só no sentido tradicional do termo (domínio de consciência fonológica ou de funcionamento semântico da sintaxe da língua), mas no sentido de ensinar a compreender a leitura de um texto, extraindo-lhe significado, reconhecendo-lhe e dando-lhe um sentido (no respeito e promoção pela pluralidade de interpretações).
Formar leitores é ensinar a ler nas linhas, nas entrelinhas e para além das linhas, isto é, compreender os diversos níveis de significado de um texto.
Formar leitores, ensinando a ler, supõe necessariamente o trabalho, o prazer e a emoção da leitura.

2. Por que razão é importante formar leitores? É importante formar leitores porque a leitura é uma actividade que possibilita transmissão de saber e relação com o conhecimento de ontem e de hoje. A leitura não é simplesmente o encontro ou diálogo do leitor com um texto, mas também do leitor com o pensamento, o estilo e a forma do autor. Há, na leitura, uma partilha de saber e de conhecimento que ora se aceita, ora se recusa, ora se problematiza.
A leitura ajuda a construir racionalidade porque é fonte de entendimento, de imaginação e de criatividade. Ler é compreender e o dinamismo de compreensão possibilita o entendimento das coisas, da vida e do mundo, num processo de construção de racionalidade. Neste sentido, ler é situar-se e perspectivar-se, reflectir sobre si mesmo e a sua prática, rever-se criticamente, confrontar-se sadiamente com a variedade de racionalidades.
A leitura permite e possibilita um discernimento do mundo e um posicionamento perante a realidade.
A leitura faz humanidade, na medida em que diz alguma coisa ao leitor sobre a sua existência e sobre o que há de verdadeiramente único e irrepetível na condição humana.
A leitura permite a aprendizagem do exercício da responsabilidade, porque o diálogo entre o leitor e um texto reclama uma postura de assentimento ou de discordância que implica e compromete.
A leitura é e possibilita uma experiência estética fundamental, que se constitui como prazer, emoção e entendimento.

3. Que propostas (destinadas a escolas e a outras instituições com funções formativas) se podem fazer para formar leitores? A partir da experiência pessoal e de alguma investigação, ouso sugerir quatro propostas para a formação de leitores:
a) A leitura deve ser uma actividade regular e continuada – actividade que deve ser provocada, porque “há que admitir que as crianças raras vezes irão procurar espontaneamente livros (…), se alguém – pais, professor, colega – não as incitar” (Jean, 1995, 156[1],); deve ser abundante, no sentido de que deve ser uma presença com a qual os leitores se familiarizem; deve ser variada e não se deixar intimidar com as supostas questões de dificuldade, porque “a cultura é feita de exigência” como refere Sophia de Mello Breyner Andresen (1993, 185[2]).
b) A formação de leitores deve constituir-se como um (longo) processo, com etapas diferenciadas, em conformidade com as fases do desenvolvimento, e com procedimentos adaptados a essas fases.
c) A formação de leitores deve investir na leitura de textos de qualidade comprovada, de vários tipos, de crescente grau de dificuldade e beleza, de modo a constituir-se como um desafio a ir mais longe e mais fundo na compreensão e na fruição estética.
d) A formação de leitores deve investir numa pedagogia do imaginário como motivação para a leitura, que contemple os seguintes aspectos, entre outros: a associação da leitura a todo o tipo de aprendizagens e de textos e não a apresentando apenas ou simplesmente como mais um conteúdo escolar ou académico; o contacto individual e visual com o texto e sobretudo o texto literário, para que se concretize uma apropriação simultaneamente pessoal e integral do texto como um todo, como uma unidade orgânica; abordagens progressivamente mais complexas do texto no sentido de desenvolver os níveis de compreensão e de fruição estética; a potenciação da dimensão lúdica da leitura, sem a ela se reduzir; a exploração criativa da linguagem, em estreita relação com a vertente lúdica do texto e a par de um conjunto de outros factores de índole emocional, estético e até social; a aproximação do texto literário a outras linguagens artísticas de qualidade, em ordem a superar o preconceito de que este se inscreve exclusivamente no reino da formalidade e do tédio ou da inacessibilidade.

4. Em que medida a edição de literatura infanto-juvenil contribui para formar leitores? A edição de textos de literatura infantil de qualidade é uma forma de contribuir, pelo menos na fase inicial do processo, para a formação de leitores e para a construção de uma postura autónoma e crítica diante da realidade do mundo.
As razões acima enunciadas a propósito da importância da leitura são exactamente as mesmas que justificam a aposta na edição de literatura infanto-juvenil. O contacto precoce, regular e continuado com este tipo de literatura, em razão das suas características particulares de comunicação e de fruição estética, potencia e desenvolve esses mesmos processos. Este tipo de literatura tem potencialidades educativas em termos cognitivos (como a leitura, a escrita e a compreensão), afectivos (como a emoção e a fruição estética) e criativos que possibilitam uma leitura do mundo, autónoma e livre, em que se deve lucidamente apostar.

João Manuel Ribeiro

[1] JEAN, Georges (1995). Na escola da Poesia. Lisboa: Instituto Piaget.
[2] ANDRESEN, Sophia M. B (1991). Posfácio (10ª edição). Primeiro Livro de Poesia. Poemas em língua portuguesa para a infância e a adolescência. Lisboa: Caminho

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

UM, DOIS, TRÊS - UM MÊS DE CADA VEZ NA BRUXINHA

A "Região da Bruxinha", dirigida por Sílvia Alves, deu mais uma vez conta de um dos meus livros. Desta vez o livro-agenda "Um, dois, três - Um mês de cada vez". Com reprodução da capa e transcrição do poema de Janeiro e respectiva ilustração de Anabela Dias.
Fica a imagem da página.

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS DE AGOSTO Leonor Riscado apresenta, na revista Pais & Flhos, do mês de agosto, o meu livro &qu...