ESCUTEI PRIMEIRO, LI DEPOIS


A Casa da Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian pediu-me um testemunho sobre os livros da minha infância. Escolhi os que seguem, justificando a escolha:

- Campo de Flores, João de Deus (Fábulas: 8 fábulas em verso)
- Os meus amores, de Trindade Coelho
- Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles
- Os Bichos, de Miguel Torga
- As Folhas Caídas, de Almeida Garrett
- O cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen
- Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira
- As aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
- O Principezinho, de Antoine de Saint Exupery
- Poesias, de Álvaro de Campos
- Poemas Completos, de Manuel da Fonseca


O meu primeiro contacto com os livros não foi a leitura, mas a audição. Conheci-lhes primeiro a voz emprestada e só depois a sua forma e textura. Durante os meus primeiros anos de vida, muito antes da escola, o jantar era sempre em casa dos avós, em redor da mesa oval que nos acolhia para a comida e para a conversa demorada que lhe sucedia. Foi ao colo do meu avô, homem terno e poético, agarrado à terra, que ouvi, “lengalengueadas” e ciclicamente repetidas, fábulas em verso que mais tarde vim a descobrir e a ler no livro “Campo de Flores” de João de Deus; no mesmo regaço escutei, deliciado, contos como a “Parábola dos Sete Vimes”, “Luzia” (enfaticamente contado por ser o nome de minha mãe), e “Abyssus Abyssum” que encontrei e li depois no livro de Trindade Coelho, “Os Meus Amores”.

Quando comecei a juntar as letras e a casar os sons com as ideias, ouvi a professora ler e comecei também eu a soletrar: “O P tem papo, / o P tem pé. / É o P que pia? // (Piu!) // Quem é? / O P não pia: / o P não é. / O P só tem papo / e pé” (excerto do poema “Passarinho no Sapé”). Cecília Meireles era, ao tempo, uma das autoras muito conhecidas e, além disso, predilecta da minha professora. Foi assim, e por esta razão, que o seu livro “Ou isto ou aquilo” se tornou para mim e para os meus companheiros um livro de que conhecíamos os textos (e que nos chegavam escritos no quadro ou simplesmente lidos) sem todavia lhe sabermos o tamanho, a ilustração ou qualquer outro pormenor. Mas era o nosso livro de eleição, pelo que fazíamos e nos divertíamos, aprendendo, com ele.
Mais tarde, no meu 4.º ano de escolaridade, alguém me ofereceu “Os Bichos”, de Miguel Torga, apondo-lhe a seguinte dedicatória: “Um livro é um amigo que sempre nos recorda os amigos”. Talvez por isso ou por qualquer outra razão indecifrável, tornei-me amigo da bicharada, a ponto de lhes dedicar algum do meu labor de escrita. O rumor e o cheiro destes contos acompanha-me ainda hoje, tal foi a marca que deixaram em mim quando os li pela primeiríssima vez.

Aos onze, doze anos comecei a escrevinhar versos, muito inspirado e influenciado por dois livros marcantes: “Folhas Caídas”, de Almeida Garrett e “Serra-Mãe”, de Sebastião da Gama. Estilos e formas tão diferentes desencadearam em mim um entendimento diferenciado da vida e do mundo, por via da emoção e dos sentimentos que tais livros provocaram. Guardo-os, ainda hoje, rabiscados, sublinhados, anotados, carregados de caligrafia pueril e observações inocentes. Marcas do tempo e urdiduras do registo da memória!

Seguiram-se livros que me tornaram cativo da leitura pela imaginação e engenho dos autores e pela consciência que em mim fizeram crescer da singularidade do mundo na diversidade possível das experiências humanas. Foram eles: “O cavaleiro da Dinamarca”, de Sophia de Mello Breyner Anderesen (a que poderia juntar o seu quase desconhecido livrinho “O Cristo Cigano”), “Uma abelha na chuva”, de Carlos de Oliveira, “As aventuras de João Sem Medo”, de José Gomes Ferreira e, inevitavelmente, “O Principezinho”, de Antoine de Saint Exupery. Cada um destes livros, numa intensidade que ainda me escapa, contribuiu decididamente para a construção da minha mundividência autónoma, responsável e livre.

No dealbar da adolescência, por via do professor de Português, tive a fantástica oportunidade de contactar com dois livros absolutamente cruciais, em termos de compreensão literária e de fruição estética: as “Poesias”, de Álvaro de Campos e os “Poemas Completos” de Manuel da Fonseca. Do primeiro guardei o ritmo quase louco da “Ode Triunfal” e da “Ode Marítima” que me deliciava a “declamar” para companheiros e amigos. Do segundo, retive sobretudo a voz limpa e incisiva de Mário Viegas a dizer o poema “Domingo”. Mais uma vez foi a audição deste texto que me fez procurar, encontrar e ler a poesia de Manuel da Fonseca.
Os livros povoaram a minha infância. Chegaram, primeiro pelo ouvido, depois pela leitura e muito tardiamente pela análise e escrita. Eles são o alicerce de uma casa começada e ainda não terminada: a (minha) Casa da Leitura.

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