BLOCO DE NOTAS I


De quando em vez, entre leituras e reflexões, dou comigo a escrever sobre os livros de outros autores, sobretudo daqueles que me impressionam, positiva ou negativamente. Partilhei com amigos algumas destas breves reflexões e estes "exigiram-me" que lhes desse alguma visibilidade. Consenti. Será o que farei nesta rubrica intitulada "Bloco de Notas", com simplicidade e singeleza.

O PLANETA AZUL E TU…

1. Luísa Ducla Soares é, talvez, a autora mais conhecida e querida dos pequenos leitores. Tal facto reside no conteúdo e no estilo do que publica, seja em prosa ou em verso. No que escreve, a autora põe de manifesto a sua preocupação fundamental de despertar nos leitores a reflexão sobre as questões substanciais do nosso tempo e de todos os tempos. O estilo caracteriza-se pelo recurso à ironia, à desconstrução temática e formal, numa clara atracção pelo nonsense, pelo jogo de palavras, pela musicalidade e pelo ritmo denso.
Estes são ingredientes de uma escrita que fascina miúdos e graúdos.

2. Um dos seus mais recentes livros intitula-se “O Planeta Azul” e, como o nome indica, sugere uma viagem “à terra que habitamos, que é a nossa casa. Tão conhecida e tão ignorada, [que] consegue sempre deslumbrar-nos e fazer-nos reflectir” (texto da contracapa).
Em 33 poemas, com estruturas formais variadas, mas onde predomina a quadra, a autora faz-nos a revisitar o planeta terra , querendo interpelar-nos com questões pertinentes, críticas e algumas sugestões. O tema geral do livro, em nosso entender, está inscrito no segundo poema do livro, intitulado “Canção da Terra”, quando se pergunta: “A Terra é nossa, quem vai permitir / que alguém se lembre de a destruir?”.
Detectamos, em termos temáticos, três linhas de força que se entrecruzam e se misturam num misto de desalento e de esperança:
- Uma primeira é a do louvor e do enaltecimento da natureza, das coisas e do mundo, como é o caso do poema “Louvor” (“Louvado seja / De norte a sul / O Planeta azul”) a que podemos juntar tantos outros, como “Lua”, “Os quatro elementos”, “Poema verde”, “Primavera à janela”, “Outono”, “O cão e o rio”, entre outros.
- Outra é a identificação de tudo o que no planeta não é belo pela acção nefasta do homem, como é o caso de poemas como “Planeta Azul” (poema de abertura), “Andorinhas da Primavera”, “Gaivotas”, “Vamos ao Centro Comercial”.
- A terceira decorre da anterior e pretende ser uma incisiva chamada de atenção ao leitor (enfatizada pelo uso da segunda pessoa do singular) numa tentativa enérgica de o implicar e lhe reclamar escolhas concretas e pessoais, tantas vezes contra a própria educação familiar, como é manifesto no poema “Vamos ao Centro Comercial” ou contra hábitos enraizados, como se mostra no poema “Escolha” (“O Sol nascia / e tu ficaste a dormir”). E tudo isto porque “Sem ti, / por tão pouco, / o mundo ficaria oco” (último poema), e porque a Terra, “Ela é a nossa casa, / a vossa, a minha e a tua!” (poema “A nossa terra”).

3. As ilustrações de Gisela Miravent são figurativas e, apesar de simples e sem grande elaboração técnica, ajustam-se ao conteúdo do livro, preenchendo pequenas manchas da página e reiterando, de certo modo, a mensagem ecológica do texto.
Um livro a ler, com gosto e de forma divertida, para repensar o nosso modo de habitar este nosso “Planeta Azul”.

Título Planeta Azul Autor(es) Luísa Ducla Soares, Gisela Miravent (ilustrador) Tipo de documento Livro Editora Civilização Local Porto Data de edição 2008

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