domingo, 30 de agosto de 2009

A ARTE POÉTICA NO ESPAÇO

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

António Ramos Rosa

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

POESIA - DIZ-ME O QUE FAZ E DIR-TE-EI O QUE É...

A poesia torna-nos mais ternos, mais sãos, mais afectuosos, mais atentos aos problemas que nos rodeiam, mais abertos aos outros e também mais respeitadores deste planeta que temos entre mãos.
A poesia (…) é o sal da Terra, o mel, e, às vezes, saudável tintura, tão necessária para sarar as feridas.

António A. Gómez Yebra
[Escritor e poeta de literatura infanto-juvenil de Espanha]

sábado, 15 de agosto de 2009

POESIA E DISTORÇÃO DA GRAMÁTICA


Em poesia, a relação entre conteúdo (o que é dito) e forma (como é dito) é fundamental e está muito para além do meramente ornamental.

O uso do som e da acentuação, da ordem das palavras, da distorção da gramática, da acumulação de imagética e a construção de uma linguagem com múltiplos níveis são, todos, recursos pelos quais podemos dizer que a poesia revela ou mostra coisas, análogos a formas de pensamento pelas quais um argumento pode mostrar, ou uma experiência descobrir, alguma coisa”. (Graham, G. (1997). Filosofia das artes – Introdução à Estética. Lisboa: Edições 70, p. 189).
O uso do som e da acentuação, da ordem das palavras, da distorção da gramática, da acumulação de imagética e a construção de uma linguagem com múltiplos níveis são meios pelos quais a mente é dirigida.

Vem isto a propósito de um poema do brasileiro Marcelo Mário de Melo (Poesia Circulante, 1985) que (re)encontrei hoje e que ilustra bem o que pode entender-se por "distorção da gramática".
Vejam se não é verdade:

VERBO FLOR

Se eu flor
se tu flores
se ele flor
se nós flormos
se vós flordes
se eles florem

E se eu não flores assim
para mim
plantarei um cacto
no meu jardim

[Marcelo Mário de Melo]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A POESIA SEGUNDO EDUÍNO DE JESUS


A poesia, não se sabe o que é.
Nem é preciso.
O que é realmente importante ninguém sabe.
(Os homens, de resto, só querem saber do que sabem...)

Não devia ser assim, claro.
Mas deixá-lo. O que ninguém sabe
É que tem o mistério e a pureza de não ser
Coisa nenhuma exactamente.

Eduíno de Jesus

sábado, 8 de agosto de 2009

O QUE É A POESIA?, SEGUNDO MIQUEL DESCLOT

A minha amiga Glória Bondons, da Universidade de Barcelona e coordenadora do grupo Poció – Poesia e Educação, deu-me a conhecer, em boa hora, a poesia de Miquel Desclot.

Nascido em Barcelona (1952), é poeta, escritor, tradutor e também escreve libretos de ópera. Entre 1975 e 1992 desenvolveu actividades de docência na Universidade Autónoma de Barcelona (UAB) e em Durham (Inglatera). Em 1992 decide dedicar-se em exclusivo à literatura.

Com mais de 40 livros escritos para o público infanto-juvenil, destacam-se especialmente os seguintes: Cançons de la lluna al barret (1978) um dos seus primeiros poemários, Juvenília (1983), Com si de sempre (1978) o Fantasies, variacions i fuga (2006).

As suas traduções (ou versões) recolhidas em Per tot coixí les herbes. De la lírica japonesa (1994) e, mais recentemente, De tots els vents (2004), constituem verdadeiras criações poéticas.
A sua obra poética encontra-se em numerosas antologias.
Recebeu vários prémios literários de poesia e prosa.

Convoco hoje aqui Miquel Desclot a propósito de um breve texto, a modo de prefácio, que escreveu no seu livro “De palabras y saltimbanquis” (2008 - Edelvives), onde, de forma simplesmente bela e excessivamente poética, nos explica o que é a poesia:
Os saltimbancos do circo só nos emocionam quando actuam na pista, executando os malabarismos extraordinários que só eles sabem fazer. Ao contrário, quando fazem o que toda a gente pode fazer, como estrelar um ovo ou comprar um jornal, os saltimbancos são tão pouco emocionantes como qualquer outra pessoa (como tu ou como eu).
Do mesmo modo, as palavras não nos emocionam quando se comportam de modo ordinário (como, por exemplo, para pedir uma borracha emprestada). Todavia, quando estas mesmas palavras adoptam um comportamento extraordinário (quer dizer, quando as palavras fazem piruetas artísticas na sua pista), começam a emocionar de uma forma assombrosa. À pista onde as palavras actuam como saltimbancos surpreendentes chamamos poesia.
Sem circo, sem música, sem teatro, sem poesia… a vida humana seria pouco mais que uma vida animal. Bem-vindos ao circo poético!

[Miquel Desclot]

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O QUE É A POESIA?

"O meu primeiro Álbum de Poesia" é uma antologia de poesia para os mais pequenos, com organização e selecção de Alice Vieira, numa edição da Dom Quixote.
Não são muitas as antologias de poesia para crianças. Esta, belamente ilustrada por Danuta Wojciechowska, tem a particularidade feliz de abrir com um prefácio da organizadora, onde se explica com palavras simples e de modo excessivamente limpo o que é a poesia, quem a pode escrever, sobre que pode “fazer-se” poesia e como se pode escrevê-la.

Deixamos aqui, com a devida vénia, alguns excertos deste texto. Os títulos são nossos.

O que é a poesia?

(…) A poesia, apesar de se fazer com palavras, está muito para além delas. É aquilo que essas palavras conseguem levar e depositar no nosso coração. E para que isso aconteça, não é preciso que sejam palavras complicadas, frases elaboradas, rimas perfeitas. (como verás, muitos (…) poemas nem sequer rimam). É outra coisa. Que não se consegue nomear, mas que se sente.
(…) Na poesia podemos não entender tudo, podemos nem entender nada. Mas, sem sabermos como, ela fica em nós.

Quem pode escrever poesia?

(…) Não há uma maneira única de escrever poesia. Há quem, através da poesia, conte uma história; há quem recorde um pequeno pormenor que lhe chamou a atenção; há quem evoque cenas familiares; há quem escreva sobre um cheiro ou um olhar; há quem, muto simplesmente, brinque com as palavras e os seus sons.

Sobre que pode “fazer-se” poesia?

Há poemas sobre animais, sobre pessoas, sobre sentimentos, sobre a natureza. Há poemas sobre fadas, sobre pastores, sobre crianças e velhos. Há poemas sobre uma rua, sobre uma casa, sobre uma pedra que de repente se encontra a meio do caminho. Há poemas sobre a tristeza e sobre a alegria. E podemos rir e chorar com eles. Pode-se escrever um poema a propósito de tudo. Não há temas melhores ou temas piores: há a arte de saber escrever a seu respeito de uma maneira criativa, ou seja, de uma maneira que seja só nossa.

Como pode escrever-se poesia?

É claro que as palavras são as que se encontram no dicionário: a arte está no modo como as usamos e as misturamos e como (por vezes) reinventamos as regras da gramática. Às vezes criam-se realidades novas. Outras vezes iluminam-se as coisas simples e conhecidas dando-lhes uma dimensão diferente da habitual.

[Alice Vieira]

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS DE AGOSTO Leonor Riscado apresenta, na revista Pais & Flhos, do mês de agosto, o meu livro &qu...