POESIA E DISTORÇÃO DA GRAMÁTICA


Em poesia, a relação entre conteúdo (o que é dito) e forma (como é dito) é fundamental e está muito para além do meramente ornamental.

O uso do som e da acentuação, da ordem das palavras, da distorção da gramática, da acumulação de imagética e a construção de uma linguagem com múltiplos níveis são, todos, recursos pelos quais podemos dizer que a poesia revela ou mostra coisas, análogos a formas de pensamento pelas quais um argumento pode mostrar, ou uma experiência descobrir, alguma coisa”. (Graham, G. (1997). Filosofia das artes – Introdução à Estética. Lisboa: Edições 70, p. 189).
O uso do som e da acentuação, da ordem das palavras, da distorção da gramática, da acumulação de imagética e a construção de uma linguagem com múltiplos níveis são meios pelos quais a mente é dirigida.

Vem isto a propósito de um poema do brasileiro Marcelo Mário de Melo (Poesia Circulante, 1985) que (re)encontrei hoje e que ilustra bem o que pode entender-se por "distorção da gramática".
Vejam se não é verdade:

VERBO FLOR

Se eu flor
se tu flores
se ele flor
se nós flormos
se vós flordes
se eles florem

E se eu não flores assim
para mim
plantarei um cacto
no meu jardim

[Marcelo Mário de Melo]

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