"EU (NÃO) SOU OS MEUS LIVROS"
A Feira do Livro da Póvoa de Varzim acolheu, ontem à noite, mais uma tertúlia “A-ler-o-mar” que reuniu Ivo Machado, Carlos Quiroga, valter hugo mãe e Alberto Serra. Moderada por mim, a conversa tinha como tema "Eu sou os meus livros". Todos os escritores foram unânimes na negação da proposição que lhes foi apresentada. Afirmando que “eu não sou os meus livros”, Ivo Machado revelou que “assusta-me passar nas livrarias e ver um livro meu”. O autor reconheceu que está naquilo que escreve e confessou que até “gostaria de ser os meus livros para estar além da verdade e da mentira”.
valter hugo mãe afirmou que “tenho tendência para achar que nunca parto para um livro para falar sobre mim” mesmo tendo a “noção que um livro depois de escrito passa a fazer parte da minha biografia”. “Eu não estou nos meus livros, quando muito os meus livros estão em mim”, acrescentou. O escritor disse ainda que “na minha consciência não consigo abranger a plenitude de tudo o que escrevo”. Sabemos o que sabemos e temos obrigação, como escritores ou artistas, de procurar saber o que não sabemos. E a este propósito, declarou “tento fazer luz na escuridão procurando conhecer o que não sei”. valter hugo mãe referiu-se também à contingência da literatura segundo a qual o texto é sempre muito mais brilhante do que o seu autor. O autor é mortal e a obra eterniza. “Não acredito em nenhum livro. Acho que os livros correspondem sempre à fuga porque a realidade é intransmissível” acrescentou o escritor que expôs que “depois de ter escrito o livro, ele fica a participar na minha vida”.
Carlos Quiroga apontou os vários motivos, tanto de forma como de conteúdo, que o levam a recusar completamente a frase “Eu sou os meus livros”. O escritor considera que alterando a sintaxe ou o tempo verbal talvez a frase pudesse fazer algum sentido. Assim sendo, “os livros que escrevi também sou eu” ou “os livros também sou eu que os escrevi” foram algumas das premissas aceites pelo autor.
Alberto Serra também contrariou a frase, afirmando que “eu não sou os meus livros” e “se fosse não estava aqui”. “Desde que sonhei ser os meus livros, tudo se tornou mais leve na minha vida”, acrescentou.
[Texto retirado do portal da Câmara Municipal da Póvoa]
[Texto retirado do portal da Câmara Municipal da Póvoa]


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