No Suplemento Cultural do Diário do Minho (de Braga), Gisela Silva, investigadora da Universidade do Minho, escreveu sobre alguns dos meus livros. Segue o texto (com a respectiva fotografia):
«Os gatos têm coisas que só a eles dizem respeito. Disso não tenho qualquer dúvida.
A minha gata, por exemplo, aprendeu a ler ainda era uma pequena cria. Parece-me que não foi coisa difícil. De tanto passear sobre o teclado, a escrever palavras raras que só ela entendia, e de tanto observá-las a formar frases, ela encantou-se pela literatura.
Ora, gato que sabe ler, gosta de ler. Mais ainda, gosta de ouvir ler! Não fosse ele um bichano muito curioso e dado a certas excentricidades! Por isso, há tempos atrás comecei por ler-lhe uma pequena colectânea de poemas de um escritor muito dado a rimas traquinas e buliçosas, o João Manuel Ribeiro, e ela adorou-o. Dos Poemas para Brincalhar (ilustração: Anabela Dias), houve um textinho, o “Saltos Altos”, que a deixou com aquele olhar que também só os gatos sabem fazer. Curiosa, ela espreitou logo para a ilustração. Aprovada, pois claro. Não fosse ela de quem é! Dois gatos ligeiros aos saltos atrás do cão, da pulga da castanha, da letra, da tinta? Imaginei, pois, e nada perguntei. Composto por trinta e um pequenos poemas este livro deu para um serão e a minha gata, depois de saber, que lá também havia uma “Caixinha Vermelinha”, fez birra. Enrolou-se à volta do anel e pra lá quis ficar a ronronar. Sabiam que os gatos não resistem a caixas, não sabiam?
Seguiu-se a este, o Rondel de Rimas para Meninos e Meninas (ilustração: Anabela Dias) com vinte e três deliciosos poemas “feitos para as crianças”. Rondel? E vi-a fixar-se em mim, entusiasmada, a cismar no gato preto (que eu sei) que tanto ronda pelos telhados vizinhos. Ela não estava propriamente a pensar na estrutura fixa do rondel (“Rondeau”) oriundo de França, mas nos galanteios amorosos que servia. Ouviu tudo com muita atenção e depois perguntou-me, intrigadíssima, a razão de tal título. Eu sorri-lhe e disse-lhe que este era um jeito bem familiar deste escritor. O de cutucar logo desde a primeira leitura. A conversa alongou-se e lá ficamos as duas a opinar.
Reis & reinetes, damas & Valetes (ilustração: Sara Cunha) é um outro livrinho de vinte e um poemas alegres e fascinantes que cativam o ouvido, e nisso a minha gata é bem experiente. Bastou-lhe ficar a par das indecisões d’ “O senhor Chinfrim” para desconfiar do “D. Sabichão”, d’ “A Dona Lambisgóia” e do “Senhor Lambareiro”. Sosseguei-a com um gesto só. O Senhor Lambareiro não tocaria nos seus biscoitos, não, senhor! Olhou-me, agradecida.
Como ela gostou deste autor, e há que respeitar os gostos dos gatos que sabem ler, continuei e li-lhe, de uma vez, A casa grande (ilustração: Ricardo Rodrigues). Eu julgo que ela ficou fascinada. Até porque ficou logo a saber que o título proveio de um sonho de um qualquer homem que quis construir uma casa grande, sem portas e sem janelas. Uma casa sem portas nem janelas? Olhou para mim como quem diz: “Vês, isso é que é uma casa!”. E quando ficou a saber que nessa casa qualquer pessoa podia entrar ou sair sempre que lhe apetecesse? Fiz de conta… às vezes não se percebe tudo, certo? Também percebi que adorou saber que na Casa Grande se fala a “língua universal da verdade”, que “o silêncio é delicioso como o mel”, que “cada um [só] está só quando precisa de estar assim” e que nessa casa só há um compartimento: a sala de estar porque aquilo é uma casa para se estar simplesmente sem mais. Olhamo-nos, também sem mais. Ambas decidimos de imediato ser cidadãs dessa Casa Grande!»
[Gisela Silva]
