segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

AS ORELHAS DOS LIVROS

«Os livros também têm orelhas». Quem o disse foi o jornalista Fernando Alves, no passado Sábado, na apresentação do meu livro «O Rapaz sem Orelhas de Burro». Muitos foram os amigos - miúdos e graúdos - que quiseram estar comigo na livraria Cabeçudos, no Parque das Nações, em Lisboa, para NÃO fazer ouvidos de mercador e partilhar o prazer de NÃO baixar as orelhas, como bem nos recomendou o Fernando com as suas palavras que, para nós, são (como) SINAIS…
«Se eu não tivesse tomado estas notas, ia falar muito depressa. Ia, quase de certeza, atropelar as palavras e as ideias.
Eu falo muito depressa. E as minhas orelhas não conseguem acompanhar a velocidade das minhas palavras. Quando está muito vento, é ainda mais difícil. É por isso que, no meu trabalho na rádio, uso auscultadores. Com os auscultadores as minhas palavras ficam ainda mais tempo nos meus ouvidos. Assim posso medir e pesar o que digo. E posso saborear melhor as palavras. Os ouvidos, protegidos pelas orelhas, ajudam a saborear as palavras. É por isso que, quando não estou na rádio, mas preciso de pensar de uma maneira arrumada, como se estivesse na rádio, ponho as mãos em concha, junto aos ouvidos. Parece que a minha boca fica encostada ao ouvido. Parece que a minha voz nasce nas minhas orelhas.
Já quando penso silenciosamente ou estou a ler um livro não é como se não precisasse de orelhas. É capaz de existir uma espécie de mão em concha dentro da minha cabeça. Ou uma orelha para apanhar as vozes que falam dentro dos livros. Quando leio uma história, a minha cabeça fica cheia de vozes. Há-de haver uma orelha invisível dentro da minha cabeça, porque as vozes dos livros não podem entrar na minha cabeça só pelos olhos.
Gosto de pensar que as vozes saltam dos livros para a orelha invisível que está dentro da minha cabeça. E entretanto descobri que quando lemos também falamos com os livros. Por alguma razão, OS LIVROS TAMBÉM TÊM ORELHAS. Perguntem ao autor deste livro «O rapaz sem orelhas de burro», o que são as orelhas dos livros. É uma maneira de meter conversa. Aliás, há leitores que têm o hábito de fazer orelhas nas páginas dos livros. Sempre que interrompem a leitura, fazem uma orelha na página. Deve ser para o livro os ouvir quando regressam à leitura e parecem perguntar, com os olhos e com os dedos: “Onde é que eu ia?”.
Um livro pode ter as orelhas que quisermos. Mas, com ou sem orelhas, os livros estão sempre à escuta do que lhes dizemos, mesmo em pensamento, quando o lemos. Um poeta de que gosto muito, Carlos Drummond de Andrade, escreveu um poema chamado POEMA ORELHA. Começa assim: “Esta é a orelha do livro / por onde o poeta escuta / se dele falam mal / ou se o amam”. Eu até desconfio que, às vezes, os livros podem ficar com as orelhas dormentes.
Também este livro é sobre um rapaz sem orelhas de burro. O que é que tem de espantoso um rapaz sem orelhas de burro? Tem que a história se passa num país onde TODOS têm orelhas de burro. O autor explicar que foi um castigo, que as fadas se quiseram vingar do príncipe e lhe fizeram o feitiço de ficar com orelhas de burro e que o feitiço caiu sobre todos os habitantes desse país. Ora como os príncipes têm de ser (ou parecer) maravilhosos (senão as revistas cor-de-rosa não se vendiam) ter orelhas de burro passou a ser uma coisa formidável. O autor desta história escreve que “as orelhas de burro tornaram-se um símbolo nacional”.
Eu estava a ler a história e pensei: por que é que ninguém se lembrou de chamar às orelhas de burro “orelhas de príncipe”? Assim as pessoas podiam usar nas orelhas umas flores chamadas “brincos de princesa”.
O que eu acho é que os serviços de propaganda desse país eram muito duros de ouvido. Ou então, tudo se complicou quando nasceu um rapaz perfeitinho (é assim que o autor o descreve). É o rapaz sem orelhas de burro desta história. Quando lerem o livro hão-de ver a grande confusão que se fez na cabeça dele por não ter orelhas de burro. Começou a fazer perguntas e mais perguntas. E logo o mandavam calar. O príncipe ficou muito furioso. E mandou fadas com feitiços. E mandou a polícia. O rapaz passou a ter de andar disfarçado com orelhas postiças para salvar a vida.
Eu creio que o rapaz começou a perceber a arte da política (e neste ponto estou a chamar os vossos pais para a conversa, até porque, como disse um outro poeta chamado Fernando Pessoa, “nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças”). Eu penso que o autor está a desafiar-nos a não fazermos ouvidos de mercador ao melhor da política, à democracia, à liberdade. Está a dizer-nos que quando um burro fala, mesmo que seja príncipe, os outros não têm de baixar as orelhas. Mas perguntem-lhe se foi isso que ele já está com as orelhas a arder.
Entretanto não vou contar a história toda, peço apenas que a leiam e se deliciem com as belíssimas ilustrações da Marta Madureira. Que leiam este livro com atenção e prazer e que o discutam com os vossos pais.
Acima de tudo, a frase final.
Afinal, este livro vem dizer-nos que as ideias, tal como as orelhas, não têm de ser todas iguais. Que é muito triste um país onde todos têm de pensar da mesma maneira. Onde tem de haver UNANIMIDADE. Deixo aqui esta palavra para complicar a conversa. Um escritor brasileiro chamado Nelson Rodrigues dizia que toda a unanimidade é burra. É claro que esta é uma frase certeira mas perigosa, uma deliciosa armadilha. Porque estamos todos de acordo com ela. E, nesse caso, o nosso acordo é unânime. Ora se toda a unanimidade é burra, lá temos as orelhas a arder. Seja como for devemos escutar todas as vozes, a começar por aquelas quem dizem coisas diferentes, devemos usar bem os ouvidos e as orelhas, tenham elas o tamanho que tiverem.
E para isto acabar num brinquinho, lembro o aviso que o poeta Alexandre O’Neill nos fez num poema chamado “A saca de orelhas”: “Não faças brincos de cerejas sem te darem primeiro as orelhas”». [Fernando Alves]

NO P2 - CRIANÇAS DO PÚBLICO

No passado Sábado, Rita Pimenta apresentou o meu livro «O Rapaz sem Orelhas de Burro» com ilustrações de Marta Madureira, no P2 - Crianças, do seguinte modo:

Mais um livro satírico à volta das hipocrisias da sociedade e do mundo. Começa assim: “Embora ninguém lhe conheça a geografia, há um país onde os homens e as mulheres têm orelhas de burro”. As fadas gémeas do poder e da vaidade conseguiram seduzir um príncipe (onde é que eu já vi isto?) e a fada da sabedoria pôs-lhe umas orelhas de burro. E passou a ser considerado normal (e recomendável) ser igual ao príncipe. Mas há naquele país um rapaz diferente, que de burro nada tem, nem as orelhas. Há-de perder a liberdade, mas não a voz.

SOPA DE LETRAS EM POESIA DAS LETRAS

O poema «O Til» do meu «Sopa de Letras» consta no livro «A Poesia das Letras - atividades com o texto poético»:

CHEIRA BEM, CHEIRA A LISBOA

De novo alguns dias (25, 26 e 27) em Lisboa e arredores, pela mão da livraria Cabeçudos.
Desta fez, as escolas visitadas foram a Escola Básica Vasco da Gama, a EB1 do Parque das Nações e a EB1 n.º 2 de Queluz. Estive com muitos meninos e meninas do pré-escolar, muitos do 1.º Ciclo e alguns do 2.º Ciclo.
Se eu tivesse de fazer um pequeno inventário do que mais me sensibilizou, escreveria: o acolhimento dos educadores e professores, os magníficos trabalhos realizados (em todas as
escolas) sobre os meus livros, o diálogo com os alunos do 5.º ano da escola Vasco da Gama (com preciosos comentários a propósito do livro «Meu avó, rei de coisa pouca»), a alegria que tomou conta de cada encontro.
A ilustrar o inventário breve ficam algumas fotografias.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

POR TERRAS DE SOURE...

Centro Escolar de Degracias e Centro Escolas de Samuel, no Concelho de Soure, dias 11 e 12. Já lá tinha estado o ano passado, com os alunos do 1.º Ciclo. Desta vez, estive com os mais pequeninos dos diversos Jardins de Infância. Foi como da primeira, igualmente bom e bem recebido pelas educadoras e demais responsáveis do agrupamento e da autarquia. Impressionante foi perceber como as educadoras «trabalharam» os meus livros com as crianças (e foram muitos), como por exemplo «A Menina das Rosas», «A Casa Grande», o «Animalices», o «Alfabeto de adivinhas» e até o «Um, dois, três - um mês de cada vez» (com um excelente livro ilustrando o primeiro poema deste livro sobre o mês de Janeiro).
Ficou já agendada uma próxima visita para os alunos do 2.º Ciclo...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

«A BELEZA DAS MENTIRAS»: CITAÇÃO 1

Na edição fim-de-semana do Jornal «I», José Luís Nunes Martins, escreve o texto que a seguir se reproduz, na página das «Opiniões» e na rubrica «Filosofias». Eu subscrevo e assino por baixo:

A BELEZA DAS MENTIRAS

As palavras são uma fonte abundante de confusão. Na maior parte dos casos, é a falar que a “gente” se desentende. Quantos problemas se evitariam se dominássemos a arte do “nem tentar dizer”? Quem cala, pelo menos não mente.
Com poucas hipóteses de refutação, o silêncio é sempre um bom argumento que se torna praticamente indestrutível se usado no tempo certo. As palavras pouco dizem, prometem – mas não cumprem. Só a acção expressa a verdade.
Escolher não dizer é uma das melhores decisões. Ouve-se mais e melhor, dando atenção a realidades que o normal ensimesmamento do falar faz esquecer. Na esmagadora maioria dos casos, as palavras são simplesmente desnecessárias, traem e distraem, explicam-se e justificam-se umas às outras, mas quase nunca conseguem cumprir o que juram conseguir: levar algo de interior a outro.
As palavras são coisas deste mundo, vivem nas circunstâncias, ao passo que o silêncio já marca a presença de um outro mundo aqui. Tal como pedras, as palavras são duras demais para significar o essencial. Não se moldam, alteram a realidade até que possa ser dita.
É, por exemplo, perturbante a confiança dos que acreditam ser capazes de descrever o amor que julgam sentir… na verdade, ou não é amor e cada palavra é um engano – tanto maior quanto mais bela mais bela for -, ou é amor e, então, um olhar basta.
A verdade não depende da quantidade das palavras que se usam para dizer. A verdade, mais do que se deixar dizer, escuta-se…e escuta.

José Luís Nunes Martins (Jornal I, 7 de Janeiro de 2012, página 13)

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS DE AGOSTO Leonor Riscado apresenta, na revista Pais & Flhos, do mês de agosto, o meu livro &qu...