Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

«A BELEZA DAS MENTIRAS»: CITAÇÃO 1

Na edição fim-de-semana do Jornal «I», José Luís Nunes Martins, escreve o texto que a seguir se reproduz, na página das «Opiniões» e na rubrica «Filosofias». Eu subscrevo e assino por baixo:

A BELEZA DAS MENTIRAS

As palavras são uma fonte abundante de confusão. Na maior parte dos casos, é a falar que a “gente” se desentende. Quantos problemas se evitariam se dominássemos a arte do “nem tentar dizer”? Quem cala, pelo menos não mente.
Com poucas hipóteses de refutação, o silêncio é sempre um bom argumento que se torna praticamente indestrutível se usado no tempo certo. As palavras pouco dizem, prometem – mas não cumprem. Só a acção expressa a verdade.
Escolher não dizer é uma das melhores decisões. Ouve-se mais e melhor, dando atenção a realidades que o normal ensimesmamento do falar faz esquecer. Na esmagadora maioria dos casos, as palavras são simplesmente desnecessárias, traem e distraem, explicam-se e justificam-se umas às outras, mas quase nunca conseguem cumprir o que juram conseguir: levar algo de interior a outro.
As palavras são coisas deste mundo, vivem nas circunstâncias, ao passo que o silêncio já marca a presença de um outro mundo aqui. Tal como pedras, as palavras são duras demais para significar o essencial. Não se moldam, alteram a realidade até que possa ser dita.
É, por exemplo, perturbante a confiança dos que acreditam ser capazes de descrever o amor que julgam sentir… na verdade, ou não é amor e cada palavra é um engano – tanto maior quanto mais bela mais bela for -, ou é amor e, então, um olhar basta.
A verdade não depende da quantidade das palavras que se usam para dizer. A verdade, mais do que se deixar dizer, escuta-se…e escuta.

José Luís Nunes Martins (Jornal I, 7 de Janeiro de 2012, página 13)