quinta-feira, 20 de novembro de 2014

DESAFIO DE "O CORREIO DO PORTO"

O "Correio do Porto" publica um desafio que me foi feito por Paulo Moura Lopes, a propósito do livro "Amo-te - Poemas para gritar ao coração". Transcrevemos aqui o texto, com a devida vénia.
Os poemas de João Manuel Ribeiro que compõem o livro “Amo-te” andaram na sacola e no coração de muitos alunos, que os leram, releram e teceram observações e comentários de vária índole com o intuito de tornar o livro saboroso e apetecível aos jovens leitores. O que foi alcançado, pois a obra esgotou e está para sair a 2.ª edição. Ora nós voltamos a fazer o mesmo, lemos e relemos os poemas para gritar ao coração e selecionamos alguns desabafos do autor para os devolver àquele em forma de questão. As respostas chegaram no mesmo tom: poético.
Por Paulo Moreira Lopes e fotografia de Augusto Baptista.
Escreveu poemas para gritar ao coração porque o coração dela ouve mal?
Não! Escrevi porque, às vezes, o coração, como o amor, é cego e surdo. Ou faz-se!
Se viajar é quase sempre partir para ficar, tal significa que costuma fazer férias cá dentro?
Cá dentro ou lá fora, o importante é partir, ou seja, não se aquietar, não se resignar; partir a loiça, de alguma maneira.
Se ela está atravessada nos seus dias como consegue chegar ao futuro?
Não sou eu que chego ao futuro, ele é que se esforça por me agarrar, mas eu chego sempre tarde.
Se a sede cresce para o chão, quer dizer que nasce no céu?
Pode ser! Qualquer lugar é bom para ser fonte!
Se é capaz de pressentir a alegria que mora nela é porque ela tem a morada aberta?
A alegria raramente fecha portas! A alegria é uma morada aberta! A alegria vive paredes meias com o amor!
Explique-nos como se apaga um incêndio de água?
Não se apaga! Esse é um incêndio que só existe dentro do poema! Que só o poema faz! É o incêndio de água do poema!
Enaltece tanto as virtudes do amor, mas depois diz que tem medo do amor. Será que sofre de bipolaridade?
Seguramente! Esse é um dos seus sintomas e efeitos! O amor é um avassalador paradoxo. Os poetas são, talvez, quem melhor capta esta tensão ou demência!
Por aquilo que sei, mora na fúria das marés. Quando o mar está calmo mora onde?
No mar! A enfurecer as marés…
Consegue guardar um vendaval nas meninas dos olhos sem lhe entrar ciscos?
Sim! Um vendaval é, como a palavra sugere, um aval à venda nos olhos! É cegueira voluntária e assumida! Assim mesmo!
Sabe, por acaso, quem ata o vento? Serão os pássaros, os cavalos, as árvores ou os moinhos de vento?
Na verdade, não! Mas sei quanto custa! Disse-mo o Ruy Belo. E bem vistas as coisas, trocados os escudos por euros e somada a inflação, não é nada barato. Será mesmo melhor atá-lo. Alguém se oferece?
Confessou que não sabe ler a mudez dela. Já pensou em aumentar-lhe o volume?
Não resulta! A mudez está muito para além do silêncio! E tem uma caligrafia indecifrável (e soberbamente linda)!
Quando anda carregado de pressa, anda mais devagar por causa do peso da pressa?
Sim, qual Sísifo, castigado pelo tempo!
Costuma traçar o risco do horizonte com régua e esquadro ou prefere o desenho de mão livre?
O meu sujeito poético não tem tais privilégios! Apenas obedece ao horizonte! É ele que se risca nos meus olhos!
Quem anda nas vielas do seu pranto fica com os lábios a saber a mar?
A saber amar, não! A saber a mar? Talvez! Depende da fundura da imaginação poética!
Disse que com ela aprendeu a contramão. E o contrapé e a contraluz, aprendeu com quem?
Com ela – e nela –, seguramente!
Há cura para o coração fatiado?
Sei lá! As metáforas, de quando em vez, desprendem-se do pensamento e abrigam-se em nenhures!
Se os olhos são a bússola das mãos, quando abraça alguém quer dizer que encontrou o norte?
O abraço é, quase sempre, um lugar seguro, onde se encontra qualquer estrela polar.
Quando lava os poemas estremunhados com os olhos apetece-lhe chorar?
Sim! Só raramente o poema não é uma comoção! O poema é, notoriamente, a obsessão pelo detalhe, pela minúcia, pela lentidão do olhar! Tanto que faz doer, chorar!
Tricotei-a os anjos com agulhas clássicas, de duas pontas, circulares ou flexíveis?
Com palavras! Este é, aliás, o único lugar onde os anjos existem e se deixam tricotar!
Como reagem os dias quando são arranhados?
Como os gatos e as suas sete vidas! Eriçam-se, espetam a unha, e passam adiante!
Se o silêncio é liso o ruído será rico?
Rico? Por artes e manigâncias de quem? Da CMVM? Do Banco de Portugal? No pé em que as coisas estão…
As palavras breves são aquelas que se escrevem e se dizem depressa?
Palavras breves são aquelas que, mesmo sendo grandes ou demorando muito a dizer-se, não crescem dentro de nós. Como o orvalho da manhã!
Soletra afagos para ela os entender melhor?
Um afago soletrado tem efeitos de longa duração, sem dúvida!
Quando passa à porta dela a pé põe-se a assobiar?
Se a vir à janela, sim! E aceno-lhe! E mando-lhe beijos “repenicados”…
Um poema mudo escreve-se com gestos?
Com palavras mudas! Com gestos quedos!
Se ela é um país de mel, o João Manuel Ribeiro será o quê?
Um abelhão, obviamente!
Por último, os poemas em que se senta são firmes?
Não! A fragilidade é inerente ao poema! E não é um trono, mas um trapézio em que abundam os riscos!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

NO CENTENÁRIO DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA


DESERTOR

Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra
ou então salta prà lua
e mija de lá na terra.

José Gomes Ferreira (Pessoais, 1939-1940)

Eu, que sou menino de rua,
salto do cais para a falua.

.
Eu, que sou cantoneiro de vielas,
salto da trincheira p’ras estrelas.

Eu, que sou ferrugem do vento,
salto da lama e piso o firmamento.

Eu, que sou desertor de guerra,
salto prà lua e de lá mijo na terra.


DANOS COLATERAIS

Levantava-se cada noite
da cama
do velho avô
um fantasma de lama.

A avó, compassiva,
chamava-lhe enteado,
filho de guerra.


UMA BARRICADA CONTRA A GUERRA
[QUALQUER GUERRA]

Uma barricada de estrelas e luas
ergueu-se, intempestiva, na praça,
a impedir que medos e sombras cruas
se apossem do passo de quem passa.

Uma barricada de estrelas e luas
sitiou astros e relâmpagos acesos
no regaço largo de mulheres nuas
com sonhos e maridos presos.

Uma barricada de estrelas e luas
pendurou no estendal da notícia
um céu claro e limpo, sem gruas
a roubar do chão a poesia da delícia.

João Manuel Ribeiro

domingo, 3 de agosto de 2014

A CASA DO JOÃO recomendado

O meu livro A Casa do João, ilustrado pelo João Vaz de Carvalho, foi recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 1.º Ano - Leitura Orientada.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

CENTENÁRIO DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA

Tive o grato prazer de organizar e coordenar o livro Barricadas de Estrelas e de Luas: Antologia Poética no Centenário da Primeira Grande Guerra. Nele se oferece ao público jovem, e adulto também, uma reunião de 21 poetas para celebrar o Centenário do início da Primeira Grande Guerra. 
As temáticas são claras e a forma como são exploradas é variada. Através de imagens de violência e degradação, nostalgia e lembrança, olhares irónicos sobre a parafernália que rodeia o homem que presencia a guerra, ou simples observações, a obra imprime, no olhar do leitor, a imagética da guerra.

Os autores
Alfredo Ferreiro, António Ferra, António Mota, Aurelino Costa, Fernando Castro Branco, Francisco Duarte Mangas, Gisela Silva, João Manuel Ribeiro, João Paulo Cotrim, João Pedro Mésseder, Jorge Velhote, José António Franco, José Fanha, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Luísa Ducla Soares, Maria da Conceição Vicente, Maria Helena Pires, Nuno Higino, Pedro Teixeira Neves, Rui Zink, Sara Canelhas

Ficha técnica: Título: Barricadas De Estrelas E De Luas; Organização: João Manuel Ribeiro; Ilustração Capa: Sara Cunha; Coleção: Poesia Juvenil; PVP: 6,90€; Comprar aqui.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

LIVRO DE ESTUDOS


«João Manuel Ribeiro pertence a esa xeración, aínda non moi concorrida, que se achega ao estudo das obras dirixidas aos máis novos dende presupostos teóricos actuais e que o fan con rigor investigador,  sen complexos. E isto a pesar de que durante moito tempo non se considerou que a Literatura Infantil e Xuvenil merecese ser analizada como a literatura institucionalizada ou de adultos, sen se deter a considerar que esta literatura, escrita pensando en primeira instancia nos máis novos, é a que  configura, pouco a pouco, o imaxinario do futuro lector e o axuda a se converter nun lector competente, unha das consecuencias dunha boa planificación da educación literaria. Unha metodoloxía que permite elixir unha ampla gama de obras imprescindíbeis para  a lectura en cada tramo de idade. Este camiño, se se percorre con criterios literarios e pedagóxicos ben artellados,  evitará que autores clásicos dunha literatura, como é o caso de Sidónio Muralha, sexan aínda descoñecidos polos lectores portugueses e doutros países
Blanca-Ana Roig Rechou (no Prefácio)

CONCURSO DE JANEIRO DA VISÃO JÚNIOR


O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS

O SEMÁFORO CHORÃO NA PAIS & FILHOS DE AGOSTO Leonor Riscado apresenta, na revista Pais & Flhos, do mês de agosto, o meu livro &qu...