Amo-te - Poemas para gritar ao coração (2.ª edição)

A propósito da 2.ª edição do livro "Amo-te - Poemas para gritar ao coração", edição bilingue, retomamos uma entrevista ao "Correio do Porto", conduzida por Paulo Moreira Lopes, de novembro de 2014.

Os poemas de João Manuel Ribeiro que compõem o livro “Amo-te” andaram na sacola e no coração de muitos alunos, que os leram, releram e teceram observações e comentários de vária índole com o intuito de tornar o livro saboroso e apetecível aos jovens leitores. O que foi alcançado, pois a obra esgotou e está para sair a 2.ª edição. Ora nós voltamos a fazer o mesmo, lemos e relemos os poemas para gritar ao coração e selecionamos alguns desabafos do autor para os devolver àquele em forma de questão. As respostas chegaram no mesmo tom: poético.
Escreveu poemas para gritar ao coração porque o coração dela ouve mal?
Não! Escrevi porque, às vezes, o coração, como o amor, é cego e surdo. Ou faz-se!
Se viajar é quase sempre partir para ficar, tal significa que costuma fazer férias cá dentro?
Cá dentro ou lá fora, o importante é partir, ou seja, não se aquietar, não se resignar; partir a loiça, de alguma maneira.
Se ela está atravessada nos seus dias como consegue chegar ao futuro?
Não sou eu que chego ao futuro, ele é que se esforça por me agarrar, mas eu chego sempre tarde.
Se a sede cresce para o chão, quer dizer que nasce no céu?
Pode ser! Qualquer lugar é bom para ser fonte!
Se é capaz de pressentir a alegria que mora nela é porque ela tem a morada aberta?
A alegria raramente fecha portas! A alegria é uma morada aberta! A alegria vive paredes meias com o amor!
Explique-nos como se apaga um incêndio de água?
Não se apaga! Esse é um incêndio que só existe dentro do poema! Que só o poema faz! É o incêndio de água do poema!
Enaltece tanto as virtudes do amor, mas depois diz que tem medo do amor. Será que sofre de bipolaridade?
Seguramente! Esse é um dos seus sintomas e efeitos! O amor é um avassalador paradoxo. Os poetas são, talvez, quem melhor capta esta tensão ou demência!
Por aquilo que sei, mora na fúria das marés. Quando o mar está calmo mora onde?
No mar! A enfurecer as marés…
Consegue guardar um vendaval nas meninas dos olhos sem lhe entrar ciscos?
Sim! Um vendaval é, como a palavra sugere, um aval à venda nos olhos! É cegueira voluntária e assumida! Assim mesmo!
Sabe, por acaso, quem ata o vento? Serão os pássaros, os cavalos, as árvores ou os moinhos de vento?
Na verdade, não! Mas sei quanto custa! Disse-mo o Ruy Belo. E bem vistas as coisas, trocados os escudos por euros e somada a inflação, não é nada barato. Será mesmo melhor atá-lo. Alguém se oferece?
Confessou que não sabe ler a mudez dela. Já pensou em aumentar-lhe o volume?
Não resulta! A mudez está muito para além do silêncio! E tem uma caligrafia indecifrável (e soberbamente linda)!
Quando anda carregado de pressa, anda mais devagar por causa do peso da pressa?
Sim, qual Sísifo, castigado pelo tempo!
Costuma traçar o risco do horizonte com régua e esquadro ou prefere o desenho de mão livre?
O meu sujeito poético não tem tais privilégios! Apenas obedece ao horizonte! É ele que se risca nos meus olhos!
Quem anda nas vielas do seu pranto fica com os lábios a saber a mar?
A saber amar, não! A saber a mar? Talvez! Depende da fundura da imaginação poética!
Disse que com ela aprendeu a contramão. E o contrapé e a contraluz, aprendeu com quem?
Com ela – e nela –, seguramente!
Há cura para o coração fatiado?
Sei lá! As metáforas, de quando em vez, desprendem-se do pensamento e abrigam-se em nenhures!
Se os olhos são a bússola das mãos, quando abraça alguém quer dizer que encontrou o norte?
O abraço é, quase sempre, um lugar seguro, onde se encontra qualquer estrela polar.
Quando lava os poemas estremunhados com os olhos apetece-lhe chorar?
Sim! Só raramente o poema não é uma comoção! O poema é, notoriamente, a obsessão pelo detalhe, pela minúcia, pela lentidão do olhar! Tanto que faz doer, chorar!
Tricotei-a os anjos com agulhas clássicas, de duas pontas, circulares ou flexíveis?
Com palavras! Este é, aliás, o único lugar onde os anjos existem e se deixam tricotar!
Como reagem os dias quando são arranhados?
Como os gatos e as suas sete vidas! Eriçam-se, espetam a unha, e passam adiante!
Se o silêncio é liso o ruído será rico?
Rico? Por artes e manigâncias de quem? Da CMVM? Do Banco de Portugal? No pé em que as coisas estão…
As palavras breves são aquelas que se escrevem e se dizem depressa?
Palavras breves são aquelas que, mesmo sendo grandes ou demorando muito a dizer-se, não crescem dentro de nós. Como o orvalho da manhã!
Soletra afagos para ela os entender melhor?
Um afago soletrado tem efeitos de longa duração, sem dúvida!
Quando passa à porta dela a pé põe-se a assobiar?
Se a vir à janela, sim! E aceno-lhe! E mando-lhe beijos “repenicados”…
Um poema mudo escreve-se com gestos?
Com palavras mudas! Com gestos quedos!
Se ela é um país de mel, o João Manuel Ribeiro será o quê?
Um abelhão, obviamente!
Por último, os poemas em que se senta são firmes?
Não! A fragilidade é inerente ao poema! E não é um trono, mas um trapézio em que abundam os riscos!
Por Paulo Moreira Lopes e fotografia de Augusto Baptista

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