Contra a racionalidade?

Opinião
João Gomes de Almeida assina, na última edição da revista Egoísta (março), um razoável Manifesto Contra a Racionalidade. O adjetivo “razoável” não se aplica à qualidade da escrita, hábil, escorreita e assertiva, mas antes ao esforço lógico de fundamentar a irracionalidade, em termos propositadamente antitéticos e sarcásticos que nos fazem suspeitar da “seriedade” de tal manifesto, como gesto de amor ao mundo. Como quando pergunta a dado passo: Quem é que acredita na eficácia comercial de um texto que atenta contra a realidade? A resposta (ir)racional é dada: Ninguém, claro. Mas a argumentação, algo só compreensível numa lógica racional, continua: A culpa é do sistema. Ainda para mais existem todos os outros factores externos à edição, completamente dominados pela DGS da racionalidade.
O tom e a oportunidade do texto, bem como os sete pontos discutidos (o amor, a amizade, a família, as crianças, o trabalho, o sexo e a poesia) são de uma intensidade literária forte, que seduz o leitor (eu senti-me cativado pela voracidade linguística), mas de uma racionalidade falaciosa, como se fosse possível sustentar racionalmente a irracionalidade. A defesa da irracionalidade, no texto tantas vezes confundida, em nossa opinião, com emoção e impulsividade, é perigosa. Veja-se, a título de exemplo, dado que o tema da revista é “Política e Ilusão”, a que nos conduz a irracionalidade de um Donald Trump, de uma Marine Le Pen, e de tantos outros movimentos e grupos organizados, estruturados e hierarquizados em redor de uma irracionalidade fanática de índole política, religiosa ou outra.

Citemos, sem comentários, o ponto quatro do dito Manifesto, relativo às crianças:
(...) Dizemos que temos de as educar, para quê? Para se tornarem iguais a nós? Sim, é para isso que as gostamos de educar, pura e simplesmente para as tornar racionais. Aceitemos e promovamos a irracionalidade das crianças. A sensatez com que repetem os gestos na televisão, a facilidade com que ignoram os estímulos que não sejam sensitivos, a genuidade com que simpatizam com uma pessoa, independentemente da classe social, da crença, da cor, do feitio, do bigode, da roupa e mesmo do coração. Se aprendêssemos com as crianças, não seríamos os brutamontes sentimentais que somos hoje em dia. Ensinemos as crianças a continuarem irracionais. Aprendamos com elas. (p. 149)

O ponto sete, sobre a poesia, sentencia com uma racionalidade nocional espantosa:
Somos um país de poetas, de poetas com medo – por causa da racionalidade. (...) Temos medo de utilizar a poesia para mostrar aos outros o que sentimos. Achamos que é uma coisa para nós, para passar o tempo. Mas não – a poesia é uma coisa para mostrar ao mundo.

Dizer que a poesia é para mostrar ao mundo é tão racional como dizer que a guardamos no fundo da última gaveta da mesinha de cabeceira. Objetivamente, não é o que fazemos dela e com ela que nos torna mais ou menos (ir)racionais. O sentido que atribuímos e descobrimos no que fazemos com ela é que é suscetível de fundar a racionalidade da poesia, como afinal do amor, da amizade, da família, do trabalho e do sexo (os outros cinco pontos do manifesto, que convidamos o leitor a ler e a julgar por si, (ir)racionalmente).

Contrariamente ao que se diz na conclusão do texto, este manifesto tem um propósito, um único propósito racional, que o autor não esconde:
Escrevo para que sejamos cada vez mais irracionais. Espero que a mensagem passe, espero que efetivamente alguma coisa mude, e se mais não for, a nossa vida. Acabemos com a racionalidade.

Pois eu não, estimado João Gomes de Almeida. Eu escrevo para que sejamos cada vez mais racionais, mais humanos, sem dispensar a emoção, o coração e reconhecer até a fragilidade da razão. Espero que esta mensagem passe para que a insanidade não ganhe estatuto de racionalidade. Para que a vida (pessoal e social) não seja uma estrada sem saída. Acabemos com a irracionalidade!

P.S. As ilustrações, extraídas da Egoísta, são de Daniel Matias [com a vénia da reprodução].

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