DIA DA CRIANÇA
O dia 1 de junho, dia da criança, é o primeiro dos 365 dias da criança. Este é, devia ser, o dia para celebrar o que se vive e se exercita em todos os outros dias do ano: o respeito pela criança e pelos seus direitos. Em rigor, como se pode dizer de todos os dias ou datas especiais, não devia ser necessário o Dia da Criança, nem este se devia cingir apenas a festas mais ou menos inócuas, sem qualquer reflexão ou mudança de comportamentos e atitudes.
Ao invés do que acontecia em 1925, por
exemplo, ano em que foi proclamado pela
primeira vez durante a Conferência Mundial para o Bem-estar da Criança em Genebra e celebrado a 1 de
junho, ou em 1959, ano em que, a 20 de novembro, foi aprovada a Declaração
Universal dos Direitos da Criança, ou ainda em 1989, ano da Convenção dos
Direitos da Criança, a criança goza hoje de um estatuto e autonomia
reconhecidos por quase todos os estados-membros da ONU. Acontece que o
reconhecimento jurídico não significa, em muitos casos, o reconhecimento de facto.
É comumente aceite que todas as
crianças, independentemente da raça, cor, religião, origem social, país de
origem, têm direito a afeto, amor e compreensão, alimentação apropriada,
cuidados médicos, educação gratuita, proteção contra todas as formas de
exploração e a crescer num clima fraterno e harmonioso.
A verdade, porém, é que os Direitos da
Criança são desrespeitados todos os dias, como bem nos lembra o drama das
crianças refugiadas, as crianças traficadas, as crianças desaparecidas, as
crianças forçadas a trabalhar como se fossem adultas.
Creio bem que, apesar de publicado em
1963, mantém absoluta atualidade o poema de Sidónio Muralha, intitulado Os olhos das crianças e que convém ler hoje
devagar (e com o coracão):
Atrás
dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás
das grades de silêncio imposto
as
crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as
crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os
poetas com lágrimas no rosto.
Olham os
poetas as crianças das vielas
mas não
pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que
elas pedem é que gritemos por elas
as
crianças sem livros sem ternura sem janelas
as
crianças dos versos que são como pedradas.
O que elas pedem, o que elas têm direito
é o nosso respeito, a nossa atenção e carinho, o nosso absoluto compromisso com
a sua identidade, especificidade e felicidade. Por elas! Por nós, pela criança
que já fomos! Ou, como nos lembra vincadamente o preâmbulo da Declaração dos
Direitos da Criança, a humanidade deve
dar à criança o melhor de si própria. Numa outra perspetiva, ousaria dizer
que a qualidade da humanidade se mede pelo modo como cuida (ou não) das
crianças, o melhor do mundo, no verso feliz de Fernando Pessoa.
Eu, na parte que me cabe, no que
escrevo, nos muitos encontros que com elas tenho, procuro (sem grande esforço,
confesso) respeitar a sua identidade, as suas caacidades, as suas opiniões, a
sua palavra. Gosto mesmo de as fazer felizes, de brincar com elas, de as olhar
nos olhos, de as tratar pelo nome, de ver o mundo pelos seus olhos claros e
limpos. Ou, como propõe Ruy Bello, em Algumas
Proposições com Crianças (in Homem de Palavra[s]), porque talvez o objetivo da minha vida e, logo do que
escrevo, seja permitir a infância:
A criança
está completamente imersa na infância
a criança
não sabe que há-de fazer da infância
a criança
coincide com a infância
a criança
deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa
cair a cabeça e voga na infância
a criança
mergulha na infância como no mar
a
infância é o elemento da criança como a água
é o
elemento próprio do peixe
a criança
não sabe que pertence à terra
a
sabedoria da criança é não saber que morre
a criança
morre na adolescência
Se foste
criança diz-me a cor do teu país
Eu te
digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o
tamanho de um pau de giz
Naquele
tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda
hoje trago os cheiros no nariz
Senhor
que a minha vida seja permitir a infância
embora
nunca mais eu saiba como ela se diz


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