Esta História engraçada de uma biblioteca abandonada, de Carlos Nuno Granja, com ilustrações de Ângela Vieira (Opera Omnia) é uma declaração de amor à leitura e ao conhecimento e a esses gratuitos lugares de leitura que são as bibliotecas. Um hino aos livros, às bibliotecas e aos leitores. Um livro excelente para celebrar, portanto, o Dia Mundial das Bibliotecas, que amanhã se comemora.
O narrador começa por dizer que «ouviu-se esta história durante muito tempo…» para logo nos informar de que «um dia tudo mudou», porque se perdeu a memória e «não mais se soube desta história sem fantasia». Houve, então, uma história de que se perdeu a memória. Este facto vai deixar uma pequena cidade do interior de um pequeno país triste: pessoas tristes… sempre de dedos em riste, tristeza no ar, com presidente da Câmara bilheteiro (podia ser bisbilhoteiro) e um povo em desespero. Era, informa-nos o narrador, «uma cidade infeliz, tinha em ruínas um chafariz, um descuidado tribunal, os médicos e enfermeiros lá tratavam o que podiam dos doentes no hospital». Na cidade, havia todavia um lugar de resistência a esse clima – a escola -, em que se ‘construía’ um mundo diverso e onde até se inventou um dialeto diferente, a que se juntou um grupo revolucionário.
Diante desta situação, simultaneamente problemática e resistente, o narrador introduz e apresenta uma menina curiosa, a quem não agradava o que via, que descobriu uma biblioteca abandonada. Nessa biblioteca, devotada ao abandono, Dalila – é o nome da menina – vai descobrindo, e encontra (o texto diz “imagina”) o Capuchinho Vermelho, a Bela Adormecida, A Cinderela, a Alice no País das Maravillhas, esquecendo, assim, a tristeza, e descobrindo algumas verdades, como sejam, «a certeza que a beleza de um povo estava no seu conhecimento», que «um livro é alimento.». a biblioteca passou a ser a sua «nova morada» para «trazer os amigos para estudar».  Assim, com «detergentes de letras» e um «espanador de palavras», Dalila promove uma limpeza geral da biblioteca, a que só restava acrescentar um livro a falar.
O que aconteceu depois na cidade?, perguntar-se-á. Acontece o que uma boa narrativa exige: um conflito. De um lado Dalila, que percebe que não há razão para o susto («uma criança não podia fugir dos livros e das suas personagens»); do outro, o presidente da Câmara que pergunta: «Quem teve o atrevimento de abrir as portas ao conhecimento?». No conflito intervém «o livro mais antigo» da biblioteca, que «não consegui cumprir o prometido: o de nunca se mostrar aos homens e que nunca fossem misturadas as histórias reais com as histórias inventadas» e faz um elogio à fantasia e à multiplicidade do mundo.
Dalila, e todos com ela, escolhe(m) os livros, o conhecimento/alimento e «a pequena cidade do interior de um país muito pequeno voltou a ter pessoas sorridentes e em aceno. A biblioteca estava agora de porta aberta vinte e quatro horas por dia.»
Identificado o tema/assunto do livro (e a sua trama), impõe-se uma questão que se prende com a articulação entre o título e o tema: pode uma biblioteca abandonada ser uma história engraçada? Não será antes uma história desgraçada? Em que sentido se entende que uma biblioteca (mesmo abandonada) pode ser uma história engraçada? A meu ver, no sentido em que a biblioteca tem sempre uma ‘graça’, um valor em si mesma, é um património a descobrir. A biblioteca abandonada torna-se engraçada quando é descoberta. Neste caso, o título pode funcionar para os pequenos leitores como um enigma.
No plano linguístico, salta à vista a persistência nas rimas internas. Este efeito, criticável na literatura para adultos, na literatura para a infância é uma estratégia linguística e rítmico-estilística, não só admissível, mas até recomendável por causa do ritmo e da musicalidade, tão ao gosto das crianças. Subsistem, ainda, neste livro, alguns recursos estilísticos assinaláveis, como são, a grande parábola ou metáfora que o assunto do livro constitui, as evidentes personificações (livros que falam, detergentes de palavras, etc…), bem como a caracterização das personagens de quem ignoramos como são fisicamente, mas que identificamos psicologicamente. 
Resta dizer que o casamento entre texto e ilustração nem sempre é inteiramente conseguido, notando-se por vezes uma tensão que pode inquietar o leitor menos prevenido!
Recomendo vivamente!

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