LIVRO DA SEMANA - A MÁQUINA INFERNAL
O momento presente, cheio de guerras e conflitos, reclama que reflictamos sobre o mundo que queremos deixar às nossas crianças. Escolhemos, por isso, para a semana que aí vem, um livro que pode ajudar a pensar a paz como tarefa de todos, também das crianças.
Em
A Máquina Infernal, de Alain Corbel (2005),
um presente surpresa, embalado numa “caixa de cartão, uma caixa enorme!” é
oferecido pelo senhor Isidoro ao pequeno Tim. Surpreendentemente, o presente
recebido não é referido textualmente, mas apenas visualmente sugerido: pequenos
bonecos de índios.
A
atenção textual e visual do leitor é reclamada, na segunda dupla página, pela
caixa enorme e pelo trabalho de transformação a que o pequeno Tim a sujeita. O
texto da página da direita, no canto inferior direito, dá conta do processo e
das intenções operadas: “A seguir instalou-se dentro da caixa e afirmou: -
Agora vamos fazer a guerra! A caixa de cartão tinha-se transformado num
tanque.”
As
seis páginas duplas que se seguem descrevem o “teatro” da guerra e das suas
vítimas, com o bombardeamento que Tim faz ao cão, aos pais, à escola e que não
dirige ao vendedor de rebuçados, ao cinema e à rua inteira, terminando na
constatação de que o tanque se autonomizara e que só ao fim do dia parou.
Dentro do tanque/caixa, Tim chorou e adormeceu...
A
temática da guerra e das suas questões e consequências é assim abordada “de
forma espontânea e sem recurso a ‘moralismos’” (Ramos, s/d) fáceis, sem
contudo, sugerir a atenção às escolhas e aos sonhos pessoais, porque estes têm
consequências para todos. A uma certa inocência da mensagem verbal contrapõe-se
a mensagem da vertente pictórica pela inclusão da cor castanha e escura da
terra deserta e destruída, vista sempre de dentro da caixa/tanque.
A
narrativa retoma-se com uma referência temporal (“na manhã seguinte”) e a
introdução de uma nova personagem: “uma menina veio bater à porta do tanque.”
Do diálogo entre ambos resulta a constatação de que, afinal, onde Tim vê um
tanque, a menina vê um regador. E “porque um regador rega mais depressa do que
um tanque bombardeia, a meio do dia, já tudo tinha voltado a ficar como antes”
e Tim, “aliviado e supercontente, convidou a menina a brincar com ele”. O
convite parece sugerir que a guerra é uma tarefa que nasce da solidão ao
passo que a paz se faz com os outros; a guerra faz-se contra os outros, a paz
faz-se com os outros. Outra mensagem subliminar do livro pode ser a de que é
preciso ter cuidado com o que se sonha e deseja.
Em
termos pictóricos, a retoma da narrativa estabelece uma rutura com a parte
inicial, sobretudo pela introdução de cores vivas e variadas, com particular
incidência para o verde da terra, não já deserta e árida, mas cultivada e
habitada por todos os seres vivos, enfatizada pela perspetiva da liberdade (não
se vê a realidade a partir do interior, mas do exterior, havendo um perfeito
domínio da caixa/regador).
O
parágrafo conclusivo da narrativa pode entender-se legitimamente como uma
declaração de confiança nas crianças e na sua habilidade de navegarem “juntos
para uma ilha mágica.”



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