LIVRO DA SEMANA

OLHOS TROPEÇANDO EM NUVENS

João Pedro Mésseder (pseudónimo de José António Gomes) é, na minha opinião, o maior poeta português para a infância e a juventude. Bastará seguir com atenção o seu percurso literário para compreender que não se limita aos jogos poéticos nem à reinvenção da tradição popular, mas produz verdadeira poesia, disparada ao coração e à inteligência, poesia que provoca o pensamento, que conduz à estranheza verbal e concetual, sem abandonar nunca o precioso e minucioso trabalho com as palavras e a linguagem. Além disso, o seu itinerário poético pauta-se por uma linha de coerência que não se amedronta com supostas questões de dificuldade, mas que aposta na dificuldade como provocação poética aos mais novos (e não só).
A série de livros iniciada com Pequeno Livro das Coisas (2012), passando por Tudo É sempre Outra Coisa (2013), De Umas Coisas Nascem Outras (2016) e Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas  Haicais ou Quase (2017), todos com a surpreendente ilustração, a quatro tons, de Rachel Caiano, são a prova e o fundamento da nossa afirmação inicial.
Neste Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas  Haicais ou Quase (edição da Caminho), o poeta dá continuidade a um trabalho poético iniciado com o livro À Noite as Estrelas Descem do Céu – 34 poemas para jovens e alguns desafios poéticos, com ilustrações de Emílio Remelhe, editado em 2002, pela Campo das Letras, com o propósito claro de, por um lado, dar a conhecer o pequeno poema de três versos, sem título nem rima, chamado haicai ou haiku, tão popular no Japão, cujo grande cultor foi Matsuo Bashô (1644-1694), e por outro, desafiar o leitor a compor os seus próprios poemas.
Na introdução, Não são bem haicais mas quase, o poeta explica ainda que inicialmente o haicai tinha dezassete sons elementares (ou sílabas métricas, cinco, sete, cinco, respetivamente no primeiro, segundo e terceiro versos) e fazia sempre referência a uma estação do ano, regras que hoje não são  tidas em conta pelos cultores deste tipo de texto. O importante, e que se mantém, é a atenção às pequenas coisas da natureza e não só. E, em poucas palavras, fixar no haicai um momento especial da vida, que pode ser alegre, cómico até, ou triste, um momento cheio de beleza ou mesmo feio. Captar esse instante como numa fotografia (de que os japoneses tanto gostam) é uma das finalidades do haicai.
Este registo de texto poético constitui efetivamente um desafio ao olhar e à inteligência do leitor, como sugere o haicai que empresta o título ao livro:

Olhos
tropeçando nas nuvens,
aturdidos de alegria.

Ou ainda:

Esta manhã o vento
Vestiu-se de chuva, ou foi a chuva
Que se vestiu de vento?

Um livro a não perder (que também fará bem aos adultos)!

Recomendo vivamente!

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