SALAMALEQUE DE ENTREVISTA AO CATA-LIVROS

Entrevista concedida ao Cata-Livros, em julho de 2013, a partir de perguntas feitas por crianças, a que respondi com boa disposição, muitas memórias de quando era pequeno e algumas das minhas rimas preferidas.

Qual era o livro de que mais gostava em criança?
Chamava-se «Avô Lamego» e não era um livro, ou melhor, era um livro vivo. Como digo muitas vezes nas escolas que visito (e também escrevi em Meu Avô, Rei de Coisa Pouca), antes de ler livros, ouvi histórias, rimas e lengalengas contadas e ditas pelo meu avô. Só quando cheguei à escola comecei a ler livros. E lembro-me de, ao longo da minha infância e adolescência, ter lido alguns livros que me ficaram gravados na memória. Partilho o título de alguns deles: Campo de Flores, de João de Deus, Os Meus Amores, de Trindade Coelho, Os Bichos, de Miguel Torga, As Folhas Caídas, de Almeida Garrett, O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira, As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, entre outros.
Há, todavia, um livro que me marcou profundamente e que, posso dizê-lo com segurança, foi (é) o livro da minha infância e que me foi dado a conhecer pela professora que tive durante alguns meses no 2.º ano de escolaridade. O livro chama-se Ou Isto ou Aquilo e foi escrito pela brasileira Cecília Meireles. Ainda hoje me comovem as poesias desse livro. Recomendo-o a sua leitura.

Pode contar-nos como é uma das rimas ou lengalengas que o seu avô lhe ensinou e de que gostava muito quando era pequeno?
Há uma lengalenga que o meu avô dizia como ninguém e que funcionava como o rastilho de todas as outras. Chama(va)-se «A casa do João». Eu chamo-me João e o meu avô João se chamava.
A lengalenga é assim:

Aqui está a casa
que fez o João.
Aqui está o saco do grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
Aqui está o rato
que furou o saco de grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
Aqui está o gato
que comeu o rato
que furou o saco de grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
Aqui está o cão
que mordeu o gato
que comeu o rato
que furou o saco de grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.

Esta lengalenga marcou-me de tal maneira que escrevi um livro, brevemente disponível, como mesmo título e que glosa a temática da casa e das velhacarias do cão, do gato e do rato. Para o ilustrar escolhi, como não podia deixar de ser, outro João – o João Vaz de Carvalho.
Espero que o livro possa provocar em vocês a alegria que a lengalenga (ainda) desperta em mim. Havia ainda outras rimas e lengalengas com que o avô me brindava. Para além das mais conhecidas, havia as menos conhecidas e que ainda hoje guardo no baú da memória. Dois exemplos, entre tantos que podia citar:

Tim-tim
Sarramacotim…
Debaixo da torre
Mora um homem
Que vende garrafas
E garrafões…
Chamado tia-patia Tia-Joanita
Que puxa a orelhita.»

Ou ainda:
«Una, duna,
tena, catena,
cigala, migala,
gavim, gavião,
conta bem
que são dez.

Gostou de escrever o livro Sopa de Letras? Quanto tempo demorou a escrevê-lo?

Escrevi a Sopa de Letras porque, nas visitas às escolas, os professores diziam-me com frequência: – Bom, bom era se escrevesse algo que nos ajudasse a trabalhar a Língua Portuguesa. Os comentários foram deixando em mim as suas sementes. Um dia resolvi meter mãos à obra e escrever poemas sobre as letras e afins. Escrevi bastantes poemas. E pensei editar vinte e quatro, mas a ilustradora Anabela Dias convenceu-me a reduzir para metade. Julgo que a observação que me fez mudar de ideias foi mais ou menos assim: – Com tantos poemas, o livro não será uma sopa de letras, mas uma sopa de pedra.
Fiquei convencido. E com muito gosto e prazer por ter escrito (cozinhado) estas receitas. Um livro de poemas, salvo raras exceções, não nasce de um dia para o outro, repentinamente. Demora a escrever. Nasce hoje um poema, outro depois e outro ainda mais tarde. O poema nasce «ao sabor do prazer e da emoção» e depois tem de se «rever e aperfeiçoar» para que possa tilintar, isto é, captar a (tua) atenção de leitor, como bem escreveu Teresa Guedes. Assim, torna-se impossível dizer quanto tempo demorei a escrever todos os poemas, mas, asseguro-vos que foi muito tempo.


Porque é que decidiu fazer um livro (Improvérbios) com provérbios alterados? Acha queos provérbios não estão bem? Porque os quis mudar?

Esse livro (como todos) tem uma história na sua origem: conheci uma velhinha que sempre que falava comigo usava e abusava dos provérbios. Quando a visitava, por exemplo, e a cumprimentava dizendo:
– Então, tia Maria, está boa? Há quanto tempo a não via! – logo ela me respondia:
– Ó menino, mais vale tarde que nunca. – Ou então:
– Quem é vivo sempre aparece!
Compreendi que a velhinha sabia muitos provérbios, tinha uma cultura popular muito grande, transmitida de boca em boca. Também reparei que usava sempre os provérbios para defender as suas ideias antigas, conservadoras e, quase sempre, como «raspanete» moral.
Um dia, ao pensar nisto, tive a ideia de pegar em provérbios, misturá-los, pô-los de «pernas para o ar» para ajudar a refletir sobre a veracidade e utilidade dos mesmos.
Entendo que muitos provérbios nasceram de experiências que foram úteis e válidas (concretamente as da cultura rural, ligada aos ciclos da natureza, etc.), mas que hoje não cabem na realidade. Neste sentido, alguns provérbios «não funcionam bem». Outros há, relacionados com tradições e costumes, que deixaram de ter sentido porque os costumes e as tradições em que se baseiam já não existem.

Depois, o próprio exercício de «brincalhar» com os provérbios, além de divertido, pareceu-me saudável, na medida em que nos ajuda a pensar ao contrário, às avessas, a «ver» outra perspetiva. No fundo, também há verdade no contrário dos provérbios (nos improvérbios, no sentido de improváveis).

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