E QUE TAL FAZER NADA?
Este fim de semana caiu-me nas mãos um livro que me
deixou perplexo e gerou em mim sentimentos contraditórios. Chama-se 101 Coisas para Fazeres ao Ar Livre, e
foi escrito Shahid Mahmood e Susan
Hayes (Jacarandá, junho de 2017).
Apesar de considerar algumas das propostas muito
interessantes, entristece-me o facto de que seja necessário alguém dizer(-nos)
o que podemos fazer ao ar livre, como se esse não fosse já o nosso ambiente natural,
como se não soubéssemos como desfrutar do tempo, como se vivêssemos enjaulados
em apartamentos minúsculos e em ruas apertadas e sem espaço para respirar ar
livre e puro!
Às 101 coisas propostas eu acrescentaria talvez a
melhor e mais importante que se pode fazer (também) ao ar livre: NADA.
A sinopse que consta no livro informa que o seu
objetivo é o de celebrar a infância e a vida ao ar livre, destinado a todos os
aventureiros e pequenos exploradores. Atualmente é
cada vez mais difícil gerir a tecnologia e os ecrãs, que parecem prevalecer no
dia a dia das crianças. Este livro está repleto de ideias muito
simples e estimulantes para os cinco sentidos, que serão certamente as que
permanecerão na memória dos mais novos - fazer um arco-íris, trepar uma árvore,
plantar morangos, fazer uma batalha de balões de água ou organizar uma caça ao
tesouro, são apenas algumas das 101 atividades propostas.
O propósito é legítimo e bom, mas não deixa de ser provocatório e, de
certo modo, infantilizante! Trata as
crianças (e os adultos) como patetas, como inaptos para a vida ao ar livre! E
isso (na minha opinião) é triste!
Ainda assim, para quem não saiba o que fazer ao livre, para quem não saiba
como respirar, para quem não saiba como é bom ESTAR ao ar livre, para quem não
conheça a riqueza de fazer NADA, o livro será muito útil. Funciona como um
ótimo livro de instruções, sendo que não será tão fácil de “montar” como um
móvel do Ikea ou como um eletrodoméstico da cozinha (apesar das ilustrações que
mostram “como” fazer).
Reconhecendo o mérito do livro e a sua (in)utilidade, apetece-me dizer:
Malditos livros de instruções!!!


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