LIVRO DA SEMANA - ANIMAIS E ANIMENOS

Neste Animais e Animenos, de Rita Taborda Duarte (Caminho, 2017), o que (as)salta logo à vista é o trocadilho do título: animais e animenos. Somos imediatamente levados a concluir (erradamente?) que há animais que são mais e outros que são menos. Talvez resida aqui o segredo do livro. Na verdade, há os animais que conhecemos (como o elefante e as formigas, as girafas e pigmeus, as pulgas, os cangurus, camarões, cavalos-marinhos, os mosquitos e os periquitos e os macacos) que se inscrevem na realidade, e os animenos que (ainda) não reais, «por terem de menos mais», «e sem serem bem animais / são chamados animenos, / bichos tal qual os demais / mas tendo bastante menos.» que «nem se veem a olho nu…/ só com o olho bem tapado / por pálpebras aconchegadas // à fronha de uma pestana…». Tão-pouco são visíveis ao microscópio ou ao telescópio, porque «são bichos que não se veem / nem com lentes de aumentar / sequer com olhos de ver. // Para que possam ser vistos / é capaz de ser melhor / fechar os olhos bem fechados // como se tivessem um estore / ou mesmo uma persiana / entre o sobrolho e a pestana.»
É, assim, saltando de ideia em ideia, pulando de verso em verso, que somos confrontados com animais que, afinal, são o reverso de si, animenos, como, por exemplo, as elefantigas, «bicho miúdo e trombudo» (…) «sempre em filinha, / levando o de trás na tromba / o rabo que o da frente tinha.»; os girafeus, «uma espécie de girafas / cruzadas com pigmeus», com «um pescoço invertido», incomodados por gigopulgões minimais, mudando de girafeus para girafu, «girafa-canguru em fuga»; os camaritos, camarões mínimos; a naloleia azul, «animal mar(z)inho», que fazia tempestade(s) «de tão grande brutalidade / que todo e qualquer nanobicho / ficava mesmo aflito…».
Vistos deste modo, cautelosa e demoradamente, «são estes alguns animenos / que se atropelam em turbilhão / dentro da nossa cabeça / quando fechamos os olhos: // uma espécie de piolhos / que vivem nos nossos miolos / e não nos nossos cabelos / e assim, por isso mesmo, / é impossível vê-los.»
Estes animenos não são de ver, mas são de imaginar:

«É que dentro de qualquer pessoa
(Seja ela má ou boa)
Rodopia uma macacança,
Espécie especial de macaco
Mesmo muito pequenino
Mesclado de criança,
Que, dançando em piruetas,
Desarruma os pensamentos.

Remexe em coisas erradas
Para desarranjar as certas.
E pulando de ideia em ideia,
Cada fim é um recomeço
Que provoca comichão
No lóbulo da imaginação
E vira o mundo do avesso.

Mas há, também,
Quem assim não seja
Há quem tenha muito siso
E viva sem bicharada
A mordiscar-lhe o juízo
E expulse do pensamento
Estas bichezas tão estranhas,
Vivendo com muito bom senso
E algumas teias de aranha.

Mas olhem que deve ser bem chato
Andar de cabeça vazia
Sem que estes Animenos
Andem por lá aninhados.
(…)
Por isso, deixem que eu vos diga
Não queiram ser meninutos:
Ter um corpo de criança
E uma minicabeça de adulto.

Está (pre)visto!
Animenos são animais que vivem e estão na imaginação das crianças e animais são aqueles que apenas estão na vista e na cabeça vazia da realidade dos adultos.
Um livro fantástico, capaz de fazer rodopiar, em todos, uma macacança! E que bem que faz esta comichão ao lóbulo da imaginação!
As ilustrações de Pedro Proença acompanham a estranheza desconcertante do texto, não permitindo, uma ou outra vez, que este respire como devia.
Viva a imaginação! Viva a macacança!

Recomendo vivamente!

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