LIVRO DA SEMANA - O SEGREDO DO PAPA-FORMIGAS
Os bons livros não têm
idade. Este O Segredo do Papa-Formigas, apesar de editado em 2008 (Faktoria de
Livros / Kalandraca), é um livro excecional, constituído por 31 poemas que se
aproximam do coração e captam a atenção do leitor pelo valor e qualidade poéticas, traduzidas numa riqueza de imagens, na ternura e humor à volta da criança, em que
uma menina e um velho tigre, na calada da noite, falam de sonhos e trocam os
seus segredos. Segundo alguns, este poemário – melhor seria chamar-lhe animalário – roça a perfeição e constitui
uma joia literária de que as crianças não são os únicos destinatários. O livro
serve também, na perfeição, o imaginário dos adultos dados à poesia e à fantasia.
Apesar de ser uma coletânea de 31
poemas, estes mantêm entre si uma cúmplice relação que o velho tigre medeia e que a
menina vai descobrindo na interação com o seu interlocutor. Assim no-lo propõe
o poema inicial: O velho tigre / guarda
os seus caninos /num copo de água, / a menina
fita-o, / sorri, / vai até junto da cama. / Dá-lhe os óculos da caixa, / pede-lhe
que leia… / que conte em voz baixa. («Em voz baixa»]
No poema seguinte, o velho tigre
(título do poema), porque «sabe da noite / sabe das fadas… / acende pirilampos,
/ conta-me em voz baixa.» E o que conta à menina o velho tigre? O mistério do arganaz traquina, dos bichos-bola e do papa-formigas,
que são poeticamente apresentados nos três poemas seguintes. No sexto poema,
fala-se das formigas, «as amigas /
que deixou fugir / o papa-formigas.» No sétimo poema, retoma-se o diálogo entre
a menina que pergunta e o velho tigre que responde. A pergunta é sobre as cócegas sentidas pela
menina nas mãos e nos pés. A resposta, iniciada na última quadra, estende-se
pelos três poemas seguintes, dedicados aos sonhos da baleia, «que te faz coceguinhas / de água entre os dedos.» («Nas
tuas mãos«), aos sonhos da doninha, que
«sonhavam campos lilases» («a teus pés»), e ao ressonar das formigas, que fazem a terra tremer e
assim incomodam os elefantes («Porque não dormem os elefantes»).
Passados estes, o diálogo
renova-se, desta vez mais provocador, porque «ás vezes, / o tigre / fica em
silêncio. / Fecha os olhos, / ronca para dentro.». A menina dá-lhe um abanão e
reclama. «Quero outro conto! / O tigre suspira. / Não tens sono, não?» («Não
adormeças»). Nos poemas seguintes, meio adormecido, o tigre fala de animais com insónias e outros problemas:
os caracóis, que «enquanto lavam os
cornos / e vestem o pijama, / já nasceu o dia… / e não chegaram à cama.» («O
problema dos caracóis»); o gambozino,
com pesadelos, porque «esta noite sonhei / que um menino dizia / que eu não
existia…» («O pesadelo do gambozino); o galo
que «quer dormir cem anos, / como as princesas», mas não lho deixam os
relógios, as agendas, os grilos, as guerras («O galo adormecido«); o morcego, que não tem sono e, por
isso, desobedece ao pai («Nana impossível»); o leão, que se sente sozinho, espreita pelo postigo e irrompe na
noite estrelada («A saudade do leão«); o gafanhoto
que salta, pula, e não vai para a sua cama («O saltimbanco) e que se vê captado
na representação visual do poema (excelente poema visual!); o caranguejo, que sonha com caracóis,
estrelas-do-mar, ouriços e algum calamar e que o poema «Sonhar para trás» captura
na grafia da direita para a esquerda (contrária à normal, no ocidente); o ouriço, triste («A tristeza do ouriço«);
uma aranha, duas joaninhas, um
bicho-bola, cinco traças e um elefante, dentro de uma caixa de fósforos
(«Se não cabes na cama»); o camaleão,
angustiado, porque «todos os dias /uma muda de cama» («A angústia do camaleão);
as açofeifas, desordeiras,
aloucadas, que vivem cá em casa («A corrida das açofeifas»); a velha tartaruga («Olhando as estrelas»); o panda, com o seu abraço tranquilo («O
abraço do urso panda»); a girafa,
inclinada sobre a lua («De onde sonha a girafa»), com pormenor visual
assertivo; os elefantes cor-de-rosa,
que dizem à menina «baixinho palavras secretas» («Para adormeceres»); as borboletas, que, debaixo da cama,
dormem e sonham («As borboletas»); as ovelhas,
que, aconchegadas na cama, contam lobos («Quando cai a noite»); os lobos, contados pelas ovelhas, que
saltam a cerca e fazem adormecer as ovelhas («Contando lobos», não
carneirinhos).
Apresentados todos estes animais,
cada um com a sua bizarria e os seus segredos, o velho tigre diz / canta / segreda à menina a «Nana dos animais»,
animais que regressam à cena, com especial destaque para o papa-formigas «que
volta para a cama, / que tem um
segredo / mas que não diz nada.»
Por fim, «A menina adormece», o
tigre leva-a para a cama, aconchega-a, beija-a na cara, depois de abraçá-la
fecha os pirilampos...
A menina já dorme,
a menina já cala…
E sonha que um tigre
lhe canta uma nana.
…
Nana, menina, nana.
Estamos, efetivamente, diante de
um livro de poemas que conta a história da hora de dormir, hora em que são
convocados múltiplos animais para fazer chegar o sono, mantendo-se um – o papa-formigas
– com um segredo que não diz… hoje. Nem talvez amanhã… ou depois… ou nunca!
Que é bom ter um segredo e não o dizer a ninguém, sobretudo a meninas que, para
adormecer, reclamam histórias tão aprazíveis a um velho tigre.
O valor e a qualidade poética, a
par de um enredo assente no diálogo imaginário entre uma menina e um tigre,
suporta uma narrativa tecida de poemas singelos (que captaram a atenção do júri
da cidade espanhola de Orihuela, que lhe atribuiu o «Prémio de Poesia para Crianças – 2008») e de ilustrações fortes,
mas tremendamente sugestivas de Miguel Ángel Díez.
Recomendo vivamente!



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