DICA DE LEITURA - FORMAR LEITORES?

[Ilustração de Ricardo Rodrigues, in A Casa Grande]

Esclarecidas as diferenças entre ler e contar, há que tentar clarificar algumas questões complementares, como: (1) o que é formar leitores (para ler o mundo), (2) porque é que é importante esta tarefa, e (3) que propostas (destinadas a escolas e a outras instituições com funções formativas) se podem fazer para esta formação.
1. O que é formar leitores?
A expressão “formar leitores” aparece muitas vezes associada às palavras “animação” e “mediação”, sugerindo-se assim que o trabalho de formação é sobretudo de animação da atividade leitora ou até de mediação, como se o educador / formador fosse apenas um instrumento ou alguém que medeia um conflito. Parece-me honestamente que formar leitores é imensamente mais que isto e exige um trabalho de orientação técnica, no sentido pedagógico do trabalho de leitura.
Formar leitores é ensinar a ler, não só no sentido tradicional do termo (domínio de consciência fonológica ou de funcionamento semântico da sintaxe da língua), mas no sentido de ensinar a compreender a leitura de um texto, extraindo-lhe significado, reconhecendo-lhe e dando-lhe um sentido (no respeito e promoção pela pluralidade de interpretações).
Formar leitores é ensinar a ler nas linhas, nas entrelinhas e para além das linhas, isto é, compreender os diversos níveis de significado de um texto.
Formar leitores, ensinando a ler, supõe necessariamente o trabalho, o prazer e a emoção da leitura.
2. Por que razão é importante formar leitores?
É importante formar leitores porque a leitura é uma atividade que possibilita transmissão de saber e relação com o conhecimento de ontem e de hoje. A leitura não é simplesmente o encontro ou diálogo do leitor com um texto, mas também do leitor com o pensamento, o estilo e a forma do autor. Há, na leitura, uma partilha de saber e de conhecimento que ora se aceita, ora se recusa, ora se problematiza.
A leitura ajuda a construir racionalidade porque é fonte de entendimento, de imaginação e de criatividade. Ler é compreender e o dinamismo de compreensão possibilita o entendimento das coisas, da vida e do mundo, num processo de construção de racionalidade. Neste sentido, ler é situar-se e perspectivar-se, refletir sobre si mesmo e a sua prática, rever-se criticamente, confrontar-se sadiamente com a variedade de racionalidades.
A leitura permite e possibilita um discernimento do mundo e um posicionamento perante a realidade.
A leitura faz humanidade, na medida em que diz alguma coisa ao leitor sobre a sua existência e sobre o que há de verdadeiramente único e irrepetível na condição humana.
A leitura permite a aprendizagem do exercício da responsabilidade, porque o diálogo entre o leitor e um texto reclama uma postura de assentimento ou de discordância que implica e compromete.
A leitura é e possibilita uma experiência estética fundamental, que se constitui como prazer, emoção e entendimento.
3. Que propostas (destinadas a escolas e a outras instituições com funções formativas) se podem fazer para formar leitores?
A partir da experiência pessoal e de alguma investigação, ouso sugerir quatro propostas para a formação de leitores:
a) A leitura deve ser uma atividade regular e continuada – atividade que deve ser provocada, porque “há que admitir que as crianças raras vezes irão procurar espontaneamente livros (…), se alguém – pais, professor, colega – não as incitar” (Jean, 1995, 1561,); deve ser abundante, no sentido de que deve ser uma presença com a qual os leitores se familiarizem; deve ser variada e não se deixar intimidar com as supostas questões de dificuldade, porque “a cultura é feita de exigência” como refere Sophia de Mello Breyner Andresen (1993, 1852).
b) A formação de leitores deve constituir-se como um (longo) processo, com etapas diferenciadas, em conformidade com as fases do desenvolvimento, e com procedimentos adaptados a essas fases.
c) A formação de leitores deve investir na leitura de textos de qualidade comprovada, de vários tipos, de crescente grau de dificuldade e beleza, de modo a constituir-se como um desafio a ir mais longe e mais fundo na compreensão e na fruição estética.
d) A formação de leitores deve investir numa pedagogia do imaginário como motivação para a leitura, que contemple os seguintes aspectos, entre outros: a associação da leitura a todo o tipo de aprendizagens e de textos e não a apresentando apenas ou simplesmente como mais um conteúdo escolar ou académico; o contacto individual e visual com o texto e sobretudo o texto literário, para que se concretize uma apropriação simultaneamente pessoal e integral do texto como um todo, como uma unidade orgânica; abordagens progressivamente mais complexas do texto no sentido de desenvolver os níveis de compreensão e de fruição estética; a potenciação da dimensão lúdica da leitura, sem a ela se reduzir; a exploração criativa da linguagem, em estreita relação com a vertente lúdica do texto e a par de um conjunto de outros factores de índole emocional, estético e até social; a aproximação do texto literário a outras linguagens artísticas de qualidade, em ordem a superar o preconceito de que este se inscreve exclusivamente no reino da formalidade e do tédio ou da inacessibilidade.

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