É possível ensinar (a ler) poesia? - I













[Ilustração de Constança Araújo Amador e poema de João Manuel Ribeiro, do livro Palavras-chave]

Se procurarmos a resposta na palavra dos poetas, encontramos com frequência e insistência a afirmação de que a poesia não se ensina, não se pode definir ou que dela não se fala: o importante é deixar que ela fale por si e de si mesma.
António Ramos Rosa afirma que a poesia é o ato de respirar pela linguagem o que o homem não sabe ou não pode dizer (…), o desconhecido inerente à existência humana. Desta observação resulta claro, por um lado, a rejeição de qualquer discurso que se sobreponha (e nessa medida substitua) pela interpretação o próprio texto, e por outro, a afirmação reiterada da fruição intuitiva do poema que permite respirar a poesia na poesia
Eugénio de Andrade subvaloriza mesmo o ensino e o estudo da poesia, como abordagem de técnicas em desfavor do que designa de inteligência do coração
No mesmo sentido permanecem ou encaminham-se vários outros poetas como Fernando J. B. Martinho, Armando Carvalho, António Franco Alexandre.  Subsiste um paradoxo, isto é, os poetas recusam o discurso sobre a poesia, mas aceitam e reconhecem a sua legitimidade e a importância, centrando-se no modo como tal ensino se processa. 
Genericamente, os investigadores parecem distanciar-se dos poetas, sobretudo porque têm consciência do capital cultural que a poesia encerra e possibilita e porque lhe reconhecem valor pedagógico e educativo. Introduzem-lhe todavia uma nuance substancial para a defesa do seu ensino: não se trata de ensinar poesia, mas de «ensinar a ler» poesia. De facto, neste contexto, tem sentido a postura daqueles que sustentam que a poesia não se ensina nem se aprende, mas pode ensinar-se e aprender a ler, analisar, interpretar – a compreender – um texto poético. Subsiste de novo aqui a distinção entre a dimensão antropológica e a obra de arte que a poesia é.
   

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