Entropia
[Ilustração de Paulo Stocker]
Colocam Deus do
lado da guerra
e
fazem a guerra em nome de Deus,
mas
Deus não é a guerra
e a
guerra é, sem dúvida, um contradeus.
Há
muitos séculos alguém disse
que
não há dano na parte que não afete o todo,
mas
o homem ainda não sabe que não sabe,
foge
para a frente, semeia
desarmonia
e de novo terror
gera
terror e guerra gera fuerra.
Nem
sequer a pedra é ja sagrada,
sangra
o tempo e o espírito
foge
com o seu mistério dos templos.
Arde
em chamas o pinheiro (já
não
arde com o canto das cigarras),
o
deserto e o mar avançam com as suas escórias, são
as
palavras um grito em carne viva
e o
ar que deu vida já não é
puro
como a geada, fino como a neve.
Mas
no mundo haverá ainda esperança
enquanto
alguém respirar
na
paz a última música
e domarr
com a ponta dos seus dedos
cada
muro de ódio
e o
último moribundo do sagrado
tremer
nos olhos abertos da criança morta.
Abaixo
a ignorância secular,
o
usura e o não amor, o não saber
que
não se sabe,
enquanto
o universo
no
céu se expande e se retira
com
o seu segredo.
Respirar
ainda em paz a fugitiva música
que
não ouvimos,
respirar
ainda em paz a música que foge
nos
remotos prados do firmamento
é
tudo o que homem deverá
saber
para salvar-se.
Antonio
Colinas
(Poemas para la paz, 2003)



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