LIVRO DA SEMANA - ROMANCE DO 25 DE ABRIL


A opção pelo "romance", enquanto género da literatura tradicional, permite, segundo Ana Margarida Ramos (recensão da Casa da Leitura),  a valorização da memória e do cariz épico das história narrada, destinada a perdurar pela transmissão de geração em geração”, opção que o próprio subtítulo reitera: “em prosa rimada e versificada”. Assim é, efetivamente, neste Romance do 25 de Abril, de João Pedro Mésseder e Alex Gozblau (Lisboa: Caminho, 2007).
O que é “narrado” é a história de “um menino / de seu nome Portugal. / (…) que vivia à beira-mar” (p. 7), governado por “homens de sisudo ar” (p. 8), “que obrigavam o menino / a não mais que trabalhar” (p. 8), perseguindo os que pensavam diferente (p. 10), agiam de modo diverso (“um homem de bicicleta [que] / trazia dentro da pasta / alguns livros e papéis.” (p. 11), censurando as conversas (p. 13), ameaçando e prendendo os que não colaboravam com o regime de Salazar (p. 14).
Também a guerra, a Guerra Colonial, faz parte da história deste menino, “que, fora “camponês e operário / e em soldado se tornara“, mas que, com o tempo, tornou-se ousado rapaz e fez acontecer o dia da liberdade (p. 23).
Apesar de não saber “qual a cor da liberdade”  (p. 24), sabe [que] “esse dia sem igual, / como um dia inicial, / esse dia inteiro e limpo / foi o 25 de Abril” (p. 27), madrugada saída “da noite e do silêncio” (p. 26) para restituir “a liberdade roubada / e à terra lancer sementes / de um reto e claro porvir” (p. 27).
Hoje, “tantos anos passados” (p. 28), Portugal, “já com os seus cabelos brancos”, trabalha “p’ra manter bem vivo o cravo, / o cravo vermelho de Abril” (p. 28). Veja-se, a este propósito, a dinâmica do cravo começado na guarda inicial e terminado / mostrado definitivamente na guarda final.
Este Romance do 25 de Abril canta, “em prosa rimada e verisificada” a história recente de Portugal, personificado por um menino (bem apresentado no frontispício do livro) que se torna rapaz (que sonha e anseia pela liberdade), adulto (que faz a revolução) e homem maduro que trabalha pelo futuro da liberdade conquistada, de modo a que se possa “cumprir / tudo o que Abril prometeu” (p.29). O futuro não é aqui tempo de esquecimento ou de alienação, mas ao invés, constitui oportunidade de mostrar aos filhos e aos netos “a raiz da democracia” e de lutar para que esse dia se cumpra.
A ilustração acentua a vertente histórica do romance, representando iconograficamente as figuras cimeiras do Estado Novo (como nota Ana Margarida Ramos) por oposição à representação do povo na revolução de Abril. A representação da transição entre a ditadura e a liberdade necessitaria, a nosso ver, de uma variação cromática mais acentuada e evidente, sobretudo pelo recurso ao cravo vermelho. A este título, registe-se ainda a figuração de um rolo de fotografia / fita de filme que surge no cabeçalho de todas as ilustrações, sugerindo que se quer “fazer ver” uma filme / uma história / uma aventura épica.
Um livro sem idade (apesar dos seus 10 anos) e para qualquer idade.
Recomendo vivamente!

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