Como escrever Poesia?
Os poetas são quem melhor nos diz
o que é a poesia. Ás vezes, também nos dizem como se escreve um poema, como é o
caso deste “Rimar” de Teresa Guedes, do livro Real…mente (Caminho, 2005):
“- Professora, preciso de uma
palavra que rime
com cordão, pode ser campeão?”
“- Claro que não! Não se faz um
poema assim!”
Explicou-nos que campeão é aquele
que escreve
um poema ao sabor do prazer e da emoção
E só no fim o vai rever e aperfeiçoar, até ele tilintar.
Tilintar?!
Sim, pode rimar, mas há versos
brancos,
que de tão claros, nos deixam
livres
para exprimir as ideias sem as
cintar.
Cintar?!
Sim, às vezes, a rima é como os
cintos apertados,
que não deixam as pessoas
respirar.
Digam lá se não dava jeito este
poema continuar
com a rima a terminar sempre em
ar?
Mas não! Entendemos a lição:
ficámos a saber
como se ouve e se respira um poema.
Pois bem: a primeira coisa que
nos é dita é que a poesia não é só rima. À pergunta do aluno que pede uma rima,
a professora responde que “não se faz um poema assim”, e explica então como se
faz, apontando três passos:
1 – Ao sabor do prazer e da emoção. Assim mesmo: escrever o que nos der
na gana e como nos aprouver, colocando o máximo do coração e do pensamento nas
palavras que escrevemos.
2 – Rever e aperfeiçoar. Escrito
o texto, é preciso olhá-lo depois, no fim, com atenção, para ver se as palavras
condizem com o coração e não atraiçoam o pensamento, limando aqui, cortando
ali, mudando uma e outra palavra, lendo e relendo o que se escreveu.
3 – Até ele tilintar. Assim mesmo, revendo-o e aperfeiçoando até que
nos pareça que, pelo que se ouve e se respira, o poema será capaz de captar a
atenção do leitor.
Mas cuidado! Não pensemos que
tilintar é apenas fazer rimar, porque, como nos é dito, ás vezes, a rima é como
os cintos apertados, que não deixam respirar. O poema pode não ter rima, ser um
verso branco, mas ser claro e limpo, e ter ritmo, música e cadência próprias.
Não confundamos poesia com rima, nem com “coisa” difícil de entender, nem com “arte
só para alguns”.
Como nos lembra Alice Vieira ("Prefácio
a" O meu primeiro Álbum de Poesia: Dom Quixote, 2008):
(…) A poesia, apesar de se fazer
com palavras, está muito para além delas. É
aquilo que essas palavras conseguem levar e depositar no nosso coração. E
para que isso aconteça, não é preciso que sejam palavras complicadas, frases
elaboradas, rimas perfeitas. (Como verás, muitos (…) poemas nem sequer rimam).
É outra coisa. Que não se consegue nomear, mas que se sente.
(…) Não há uma maneira única de escrever poesia. Há quem, através da
poesia, conte uma história; há quem recorde um pequeno pormenor que lhe chamou
a atenção; há quem evoque cenas familiares; há quem escreva sobre um cheiro ou
um olhar; há quem, muito simplesmente, brinque com as palavras e os seus sons.
(…) Pode-se escrever um poema a propósito de tudo. Não há temas
melhores ou temas piores: há a arte de saber escrever a seu respeito de uma
maneira criativa, ou seja, de uma maneira que seja só nossa.
(…) É claro que as palavras são as que se encontram no
dicionário: a arte está no modo como as usamos e as misturamos e como (por
vezes) reinventamos as regras da gramática. Às vezes criam-se realidades
novas. Outras vezes iluminam-se as coisas simples e conhecidas dando-lhes uma
dimensão diferente da habitual.
É assim mesmo: para escrever
poesia é preciso misturar três ingredientes - o coração, o pensamento e as
palavras – e amassá-los com paciência e sabedoria, até que o som e a respiração
das palavras nos façam sonhar!
Vamos lá tentar: escrevam ao
sabor do prazer e da emoção e, no fim, revejam e aperfeiçoem o que escreveram e
depois, façam-no tilintar, pela rima, pelo ritmo, pela cadência, pela força das
palavras…
Neste trabalho, se quiseres,
podes aceitar os conselhos de Louis Fidge (Teaching
Poetry. Book 3. Years 5 & 6., 2002)
1. PREPARAR-SE
• Trabalha
com alguém, se possível
• Partilha
com esse alguém as tuas ideias
• Anota
todas as ideias num papel de rascunho
• Não
te preocupes demasiado com a gramática e a pontuação (nesta fase)
2. CONCENTRAR-SE
• Lê
o que escreveste
• Pensa/fala
acerca do que escreveste. Podes torná-lo melhor?
• Elimina
as ideias de que não gostes
• Adiciona
palavras de que gostes e retira aquelas de que não gostes.
• Melhora
as palavras que escreveste no rascunho.
• Tenta
descobrir as melhores palavras para expressar as tuas ideias (as mais
interessantes, poderosas ou descritivas).
3. ESCREVE
• Lê
de novo as tuas ideias.
• Escolhe
as melhores ideias para o teu poema.
• Verifica
se há erros de ortografia.
• Verifica
se a pontuação está correta.
• Pensa
se o que escreveste expressa da melhor maneira as tuas ideias.
Bom trabalho!


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