DICA DE LEITURA – Comentário aos direitos do leitor

São sobejamente conhecidos «Os Direitos Inalienáveis Do Leitor», do escritor francês Daniel Pennac e não queria cair no lugar comum de os trazer aqui sem mais, porque julgo que refletir um pouco sobre cada um deles, se possível com os nossos filhos / alunos / grupo, etc., pode ser, é seguramente, um fantástico exercício de promoção da leitura.

1. O direito de não ler.
Este é o direito que mais me impressiona, sinceramente. Porque é paradoxal que alguém que seja leitor possa escolher deixar de o ser. Mas a razão óbvia, ainda segundo Pennac: há dois verbos que não se podem conjugar no imperativo, um é AMAR e o outro é LER. Por outro lado, se se concebe a leitura como lugar de prazer, escolher não ler, em dado passo e em algumas circunstâncias, pode ser bom e gozoso, como nos lembra Fernando Pessoa: «Ai que prazer / Não cumprir um dever, / Ter um livro para ler / E não fazer! / Ler é maçada, / Estudar é nada.»
 2. O direito de saltar páginas.
Direito fantástico, este; direito que nos permite “espreitar” as personagens, antecipar os cenários, acompanhar a ação. Sim, porque, às vezes, o escritor demora tempo a dizer o que já antecipámos, ou suspeitamos antecipar. Não raras vezes acontece que gostamos de “brincar” com o escritor, de lhe trocar as voltas, de construir analepses e prolepses de leitura. E isso faz muito bem!
 3. O direito de não acabar um livro.
Pois claro! Se o livro é chato, se não nos encanta, se não nos seduz, se não nos comove, se nos irrita. Se bem que, por vezes, vale a pena teimar (já me aconteceu…). Mas os livros (de literatura, entenda-se) não são manuais de instruções que temos de ler e seguir escrupulosamente. Depois, há aqueles livros que não se acabam hoje (porque não é ainda a sua hora) e devoram-se mais tarde (e os livros não desesperam de esperam). E é claro que não temos de gostar todos do mesmo livro…
 4. O direito de reler.
Atenção: de reler, de tresler, de tretailer, pentaler. Um livro não se cansa de ser lido e também não tem idade. Quantas vezes já reli as Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar! Ou A Ponte para a Eternidade, de Richard Bach! Ou O Principezinho ou  Cidadela, de Antoine de Saint-Exupery! Os livros não reclamam de uso abusivo!
 5. O direito de ler seja lá o que for.
Assim mesmo: romance, poesia, contos, novelas, teatro, jornais, revistas, grafitis, ilustrações, cartas de amor (ainda que ridículas), postais, jornais, revistas, sms, mms, posts, etiquetas, rótulos… Tudo o que seja suscetível de ser lido (textual, verbal, visual, virtual, etc.). Ficaria feliz se a ordem de leitura aqui sugerida fosse decrescente…
 6. O direito de amar os heróis dos romances.
Amar perdidamente! Não é proibido, não é ilegal, nem sequer tem de ser uma paixão assolapada. Também não se reclama fidelidade: hoje pode amar-se este e amanhã aqueloutro, sem que restem mágoas ou cicatrizes. Será um amor platónico? Talvez, ainda assim, parecido com tantos amores…
 7. O direito de ler em qualquer lado.
Ainda procurei investigar quais seriam os lugares prediletos dos leitores, mas a matéria, além de não ser consensual, é tão aleatória que o melhor é cada um ler onde lhe apetecer (sem perturbar os outros e sem correr riscos desnecessários).
8. O direito de saltar de livro em livro.
Ler um e depois outro e outro! Ou parte de um e depois parte de outro. Ou ler hoje este e amanhã aquele! O livro não é, já o dissemos, um manual de instruções a seguir.
 9. O direito de ler em voz alta.
Sim, claro, desde que não incomode os outros ou os perturbe, ou desde que tal não faça alguém telefonar para os bombeiros a pedir internamento por acesso de loucura. Talvez a reivindicação deste direito derive do facto de lermos pouco ou quase nada em voz alta (já falámos aqui dos benefícios deste tipo de leitura)
 10. O direito de não falar do que se leu.
E de calar a nossa paixão pelas personagens, heróis ou não, e pelos escritores que podemos nunca conhecer ao vivo e a cores. Generalizou-se tanto a ideia de que devemos partilhar (sempre) o que lemos (o quão fantástico ou desprezível foi ler este ou aquele livro) que esquecemos o direito de calar bem fundo de nós o que se leu, e quanto nos comoveu ou enfureceu!

Ler é maçada? Tenham boas leituras

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