É possível ensinar (a ler) poesia? - III

[Ilustração de Flávia Leitão, livro Improvérbios]

Ensinar a ler poesia comporta uma pluralidade de significados que Helena Buescu diz ser necessário clarificar no sentido de fundamentar a legitimidade do mesmo ensino. Assim, de acordo com esta autora, ensinar a ler poesia é, em primeiro lugar, fornecer e possibilitar a aquisição de saberes, vazados em noções técnicas que é possível conhecer, compreender e reconhecer nos textos poéticos; em segundo lugar, «ensinar-com-exemplos», fazendo parte da leitura do poema «o entusiasmo que sobre ele e com ele sentimos – e ensinar que se pode ter entusiasmo é (…) aquilo que um professor pode (e deve) fazer»; em terceiro lugar, partilhar experiências, a de ter aprendido e de querer, com entusiasmo, transmitir o aprendido. 

Em conclusão, a poesia pode e deve ser objeto de ensino e de aprendizagem, e não apenas de aprendizagem, como defendem alguns autores. Dito isto, importa fazer duas advertências: a primeira é que nada nem ninguém, no ensino e na aprendizagem da poesia, pode substituir-se ao próprio texto poético, como objeto estético; a segunda refere-se à irredutibilidade da poesia à pura «racionalidade discursiva com que a pedagogia, e mesmo a crítica, tentam frequentemente apoderar-se dela», segundo Maria Manuela Cabral. Esta última advertência ganha sentido se pensarmos que o discurso educativo sobre o texto poético não se situa ao nível da sua legitimidade, mas ao nível das práticas didáticas. Trata-se de perceber, como aliás insinuou Eugénio de Andrade e, com ele, a generalidade dos poetas, que as aprendizagens técnicas e estilísticas ou extratextuais não são apetecíveis no que toca, quer à motivação escolar, quer ao desencadear de processos poéticos autónomos. A questão central será, por conseguinte, o modo como falar, como ensinar, como tratar a poesia, para que esta se configure como uma descoberta e um encontro do aluno consigo mesmo e com os outros, pela mão da poesia.  Estas considerações sobre a legitimidade do ensino da poesia desafiam-nos a procurar os critérios gerais para o seu ensino. Partindo do pressuposto de que se pode e deve introduzir a poesia no processo de ensino-aprendizagem e a partir da investigação de alguns autores que têm desenvolvido meritório trabalho de campo, apresentamos um conjunto de critérios gerais orientadores e estruturantes do processo de ensino da poesia, com base numa perspectiva teórico-pedagógica.
 
Muitos autores afirmam que o tratamento da poesia na escola tem de ser um processo iniciado em idades prematuras, com etapas diferenciadas em conformidade com as fases do desenvolvimento e com procedimentos adaptados a essas fases.  Maria Manuela Cabral refere, a este título, que a adesão à poesia «tem muito a ver com a efetivação de toda uma pedagogia em que o texto poético seja objeto de um convívio, não esporádico, mas programado e esclarecido, muito anterior à aprendizagem da leitura». Assim sendo, o contacto com a poesia deve ser regular e continuado. A este propósito, José António Franco refere que cada professor deve ter «sempre de reserva um poema ou uma pequena citação» que conecte com os diversos temas que surjam em contexto de sala de aula e ajudem a consubstanciar uma intimidade profunda com a poesia; deve ser um contacto provocado, porque, como sustenta Georges Jean, «há que admitir que as crianças raras vezes irão procurar espontaneamente livros de poesia, se alguém – pais, professor, colega – não as incitar»; abundante, no sentido de que deve ser uma presença com a qual os alunos se familiarizem e não redutível ao que consta no manual; variado e não se deixar intimidar com as supostas questões de dificuldade, porque, como refere a poetiza Sophia de Mello Breyner Andresen, «a cultura é feita de exigência» e «uma criança é criança mas não é um pateta». 
A poesia, ao ser proposta aos alunos, deve ter em conta que o contacto primeiro tem a ver mais com aspetos rítmicos e vocais do que com estruturas sintáticas ou com os planos formal e semântico.  A oferta e o trabalho com o texto poético tem de desenvolver uma dinâmica de audição e leitura, primeiramente individual, interiorizada e silenciosa e só depois comunitária ou social. Trata-se de ouvir/ler um poema para si e para os outros, de modo a captar e a transmitir as questões rítmicas e da musicalidade, num exercício que Georges Jean designa como sendo de respirar o sentido e de captação do texto, não apenas na sua globalidade, mas também na sua especificidade e dificuldade. Outro aspeto pedagógico significativo tem a ver com a dimensão lúdica da poesia, entendida como «uma escola onde se brinca», porque «a atividade poética é uma atividade que só pode realizar-se na descontração, na alegria e no prazer» e porque essa atividade passa «por uma espécie de desconstrução da linguagem corrente de comunicação, uma desconstrução, evidentemente, de carácter lúdico».

P.S. Na próxima semana, coincidindo com o início do ano escolar, começaremos a parte prática deste projeto «às terças, há poesia» com o intuito de ajudar professores (e não só) a «entrar» na poesia. Até lá!

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