LIVRO DA SEMANA - AFINAL O CARACOL
Fernando Pessoa escreveu
que “nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças”. Sabendo isso,
Mafalda Milhões "roubou-lhe" as palavras do poema "Havia um
menino" e escondeu-as nas ilustrações deste livro que não tem palavras, a
não ser na contracapa, a modo de explicação do jogo visual que se estabelece em
cada dupla página do interior.
Aparentemente parece um
livro excessivamente simples, mas não é bem assim: é o primeiro dos “livros de
roer, de grandes autores para pequenos leitores” (o que constitui imediatamente
uma declaração de política editorial), de cartão (cartão mesmo, não cartolina)
100% reciclado e impresso com tintas vegetais (não tóxicas, portanto).
O título do livro,
distinto do título do poema, resulta do facto do livro ter sido “pensado” e
desenvolvido para a peça teatral “Afinal o Caracol”, levada à cena pela Associação
Artística Andante. Não tive oportunidade de ver a peça de teatro e tenho pena
disso, porque julgo que da associação entre poesia, ilustração e teatro terá
resultado uma experiência estética densa e abrangente.
As ilustrações de Mafalda
Milhões surpreendem-nos e seduzem-nos pela simplicidade figurativa leve, numa
combinação binária ente a página esquerda e a direita (com duas exceções),
desafiando a nossa compreensão visual e a nossa inteligência emocional,
desarmando-nos… A leitura posterior do poema, na contracapa, aliada à
visualização duma espécie de storyboard,
intensifica a surpresa.
As características físicas
do livro (cartão reciclável, tintas vegetais, cantos redondos, só 14 páginas)
levam-nos a crer que os destinatários preferenciais deste livro serão crianças
muito pequenas (entre os 6 meses e os 2 anos de idade, mas não só), sempre
acompanhadas do mediador (pais, educadores, auxiliares, entre outros) adulto. Deixo-vos o poema:
Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.
Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.
Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.
Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.
Fernando Pessoa & Mafalda Milhões (2016). Afinal
o Caracol. Lisboa: Saída de Emergência / O Bichinho de Conto.



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