LIVRO DA SEMANA - DOUTORA TIRADENTES
Este Doutora Tiradentes, de David Wallians e
Tony Ross (Porto Editora, 2017), na sequência de Avozinha Gângster e A
incrível fuga do meu avô (livros sobre os quais escrevi a propósito do Dia
dos Avós) mantém os ingredientes literários de sucesso, suscetíveis de captar a
atenção das crianças e dos adultos: uma escrita escorreita e ágil; personagens
fortes e soberbamente descritas, quer física quer psicologicamente; um sentido
de humor (britânico), que faz sorrir, sem subestimar a capacidade crítica do
leitor, muitas vezes a raiar o nonsense;
uma atenção às situações humanas de miséria, solidão, maldade e terror, amor e
amizade, que faz com que os leitores, em algum momento, se revejam, impondo-se,
assim, um certo realismo social e literário.
O
argumento da narrativa é aparentemente simples, mostrando que a capacidade de
sedução não reside sempre nem exclusivamente na força do argumento, mas também
e, neste caso, sobretudo, na conjugação sábia de diferentes artefactos
literários, como, por exemplo, o humorado terror e os alertas de múltiplas
palavras e frases inventadas. As crianças que deixam os dentes debaixo da
almofada para a “Fada dos Dentes”, à espera de um presente, acordam e
encontram… uma aranha viva e centenas de pulgas aos saltos na cama, sendo que algo
ou alguém de muito maléfico espreita nas sombras: a mamã / bruxa / dentista
Tiradentes, que se apresenta como a antítese da “Fada dos Dentes”, explorando
as virtualidades (para ela) e defeitos (das crianças) da falta de crença atual
na magia e na imaginação: “(…) Hoje em
dia, as crianças não acreditam em magia. Passam tempos infinitos a ver
televisão ou a jogar videojogos. Elas já não olham para o céu. Se olhassem,
viam-me a mim e ao meu gato a voarmos à noite, indo de casa em casa.” (p.
338).
Síngular e
comum aos mencionados livros do autor é a importância da família e das
suas particularidades no desenrolar e,
neste caso, conclusão da narrativa: nesta obra, o pai do pequeno herói acaba
por se sacrificar para livrar o mundo da bruxa Tirandentes, não sem antes
confiar o filho a quem dele podia cuidar.
Um fantáscico livro, carregado de emoção, “terror” e
humor que agarra o leitor da primeira à última página. A não perder!
Recomendo vivamente!



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