Livro da Semana - Beatriz, a árvore feliz


Em Beatriz, a árvore feliz (Trinta por uma linha, 2017), Carmen Zita Ferreira apresenta-nos uma fabulosa e não menos misteriosa alegoria da vida. Com efeito, narra-se a história de vida de uma bolota – chamada Beatriz – que se soltou do ramo onde tinha nascido, para que, caindo na terra, pudesse crescer, ganhar folhas, ramos, cortiça e bolotas suas. Mas não foi exatamente assim que aconteceu. Beatriz caiu entre a berma da estrada e o começo da terra negra. Foi preciso chover muito para que fosse arrastada até um pequeno pedaço de terra. Foi preciso que, daí, uma família a levasse para casa e a plantasse num vaso vazio da varanda. Foi preciso que, na altura em que as raízes se tornaram grandes demais para o vaso em que vivia, fosse conduzida até um terreno onde apenas viviam alguns arbustos e sete pinheiros adultos e, mesmo aí, tivesse de suportar uma violenta tempestade.
Só depois de tantas tribulações e tanta resistência, Beatriz Sobreiro, a quem todos chamam Beatriz, a árvore feliz, continuou a crescer, tornando-se numa forte e preciosa árvore. Hoje, ainda não produz bolotas, nem cortiça, mas já oferece os seus ramos aos pássaros todas as primaveras, para lá fazerem os seus ninhos e já recebe, com fresca e sublime sombra, todos os seres vivos que dela se queiram abeirar.
A intensidade da metáfora, que a alegoria expande, e a evidência da personificação, ampliada pelo nome próprio (Beatriz) e pelo adjetivo (feliz), permite ao leitor, tenha ele a idade que tiver, percecionar que se encontra diante duma história de vida, que conecta e de algum modo inclui a sua própria vida. E esta é, de facto, a magia e a grandeza da literatura para a infância: abordar temas centrais da vida humana com a simplicidade e a profundidade que as metáforas possibilitam. E isto é sedutor, porque “mostra” sem dizer, “insinua” sem afirmar.
As ilustrações de Hélder Barbosa, pela insistência no cinzento e no lilás, num jogo entre sombra e cor, conferem à narrativa uma dinâmica própria que ilumina o texto, transfigurando-o e acrescentando-lhe possíveis e novos significados.
Um livro a não perder!
Recomendo vivamente!

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