O que valem as dicas de leitura?
Estes
dias escreveu-me certa mãe para me informar de que, afinal, as dicas de leitura
em voz alta eram uma treta. Seguira-as exatamente à letra e não funcionaram,
não se detetando qualquer diferença no comportamento da filha!
Pois
bem!
Diga-se,
antes do mais, que as dicas não são uma receita, o que significa que não basta
segui-las à risca para que funcionem. O segredo, a meu ver, está no cozinheiro,
ou seja, no mediador, na “alma” que o leitor empresta ao que lê (“põe quanto és
no mínimo que fazes”, Ricardo Reis).
Registe-se
ainda que o trabalho em redor da leitura não obedece às leis da eficácia. Cabe
ao mediador semear, “contaminar”, sabendo que os frutos não dependem, em
exclusivo, do seu trabalho, mas de um conjunto alargado de factores que, ainda
assim, não dispensam o seu cuidado labor. O trabalho de leitura demora tempo e
reclama resiliência – é demorado e sem frutos imediatos. Talvez resida nisto o
seu valor, ainda que não o seu sucesso.
Por fim,
refira-se que uma dica é uma pista, um subsídio, um contributo, uma ferramenta,
que pode servir a uns e não a outros, ter cabimento num contexto e não em
outro. Cumpre ao mediador “discernir” se dada dica é ou não relevante para
certa criança e em certo meio vital.
Portanto,
querida mamã, talvez o problema não sejam as pobres das “dicas”, mas outra “coisa”
que terá de determinar e avaliar com atenção e paciência. Ou talvez não!


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