Livro da Semana - O Cuquedo e um amor que mete medo
Depois de em 2011, Clara
Cunha e Paulo Galindro nos terem dado a conhecer O Cuquedo, eis que agora os mesmos autores nos oferecem uma
história com o mesmo protagonista-herói, em O
Cuquedo e um amor que mete medo (livros Horizonte, 2017).
Depois do parágrafo inicial
em que somos informados de que o Cuquedo andava, selva acima, selva abaixo,
preocupado por ver todos os animais apaixonados e ele não ter uma namorada para
casar. É então que, escondido no arvoredo, se põe a cantar: “- quem quer, quem
quer 7 casar com o Cuquedo / que se esconde no arvoredo / prega sustos que
metem medo?”. Segue-se um desfile de animais que mostram ao Cuquedo que sabem
assustar (uma grou, uma macaca, uma hiena, uma cobra), mas sem convencer o
Cuquedo: “Não, não, não… 7 tu não sabes assustar, / não serves para casas!”,
responde a todos o Cuquedo. Até que, por fim, aparece uma Cuqueda que sabe
assustar e com quem o Cuquedo vai casar! Tal enlace tornou-se um problema para
os animais da selva que passam a viver assustados. É que “o Cuquedo e a Cuqueda
/ resolveram / esconder-se no arvoredo / e não parar de pregar sustos daqueles
/ de meter muito medo. // BUUUUUUUUUUUUU!
Em termos formais, esta nova
história segue exatamente a mesma estrutura do livro de 2011: ao desafio do
Cuquedo responde sempre e da mesma forma um animal distinto, ouvindo-se sempre
a mesma resposta até ao aparecimento da Cuqueda, personagem de desenlace. Esta
insistência na repetição da estrutura, variando apenas as personagens (os
animais) capta generosamente a atenção dos leitores muito pequenos, que se
apropriam dela e nela se mantêm na expetativa de algo diferente e
surpreendente. Diremos que, sendo uma estrutura comum e habitual, funciona bem
com esta personagem – o Cuquedo – que é uma personagem forte, que prega sustos
de meter medo.
Como nota o texto da capa –
um susto contado por Clara Cunha e pincelado por Paulo Galindro –, há uma forte
e consistente interpenetração entre a linguagem verbal e visual. Adequadas à
personagem e ao cenário da história, as ilustrações são densas, povoadas de
pormenores que requerem atenção, numa alternância entre cores escuras (o verde
da selva) e claras, presentes quando os animais “gritam” para provocar o susto.
Neste aspeto, dois pormenores sobressaem: a dupla página relativa ao guincho da
macaca, em que a imagem “parece estar” ao contrário, o que, bem vistas as
coisas, leva o leitor a pensar que assim é, de facto; a dupla página final que
tem uma espécie de badana que, por um lado, fecha a porta da história e, por
outro, esconde no verso a Cuqueda, fantasticamente assustadora, de salto alto,
flor no cabelo e mala de senhora.
Estamos diante de um livro
concetualmente forte, numa simbiose entre texto e ilustração, seguramente capaz
de arrancar emoções fortes (sustos?) aos mais pequenos e não só, se bem contada
e bem mostrada.


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