O PROBLEMA COM A POESIA


No livro A Vitamina P – A poesia porquê, para quem como? (Trinta por uma linha, 2015), Jean-Pierre Siméon afirma explicitamente que o problema com a poesia é que ela é poesia. A poesia, pela sua própria natureza, representa um problema, porque baseada num desajuste linguístico e conceptual, e, como tal, cria um conflito com a instituição supostamente responsável por nos transmitir a norma linguística, preservar a sua regularidade e o seu valor de referência comum.
De uma certa maneira, a poesia seria «contra», contra todo o processo de normalização e de organização constrangida da língua, do pensamento e da compreensão do mundo – contra a escola.
O poeta, filósofo e pedagogo francês assinala três formas de se comportar face a este problema colocado pela poesia no seio da escola:
• Considerar a poesia instrumentalizando-a enquanto objeto pedagógico, um suporte de aprendizagem.
A partir de um corpus de textos homogéneo, a poesia torna-se a base de um tratamento pedagógico. Verdadeiro objeto de saberes e de conhecimentos, ela insere-se no sistema didático, avaliável segundo critérios de pertinência (note-se a recitação e a explicação de textos). Neste contexto, a noção de emoção torna-se rapidamente um empecilho, a subjetividade inerente a toda a leitura do poema não tem aqui lugar. Oblitera-se assim o âmbito existencial da poesia, que apela ao segredo íntimo e informulável do leitor. Tudo isto, afinal, não constitui um problema para a escola, mas sim para a poesia e o que esperamos dela, da sua experiência narrada do mundo.
• Renunciar à poesia na escola
Ao sobrevalorizar e sacralizar a sua abordagem, cuida-se que ela não deveria comprometer-se com o processo pedagógico, pois isso seria perder a sua alma e a sua função subversiva. Mas esta renúncia pode provir, ao invés, do facto de certos professores nunca terem sentido a necessidade do poema, desconhecendo-a por completo. Ou do facto de a sua relação com a poesia ser de tal forma embaraçosa que preferem, por honestidade, passar ao lado.
• Fazer do problema o argumento do seu ensino
Certos professores reivindicam um lugar preponderante, e até mesmo central, para a poesia, pois é precisamente no caráter conflitual que ela assume em relação às normas da linguagem e das representações coletivas aceites que reside o seu valor educativo.
Neste sentido, eria necessário reformular a implicação pedagógica primordial da poesia na escola, que é, simultaneamente, criar as condições para despoletar o prazer, a experiência perturbadora que representa o encontro com um poema, e restaurar o gosto por aprender.
Eis como se pode fundar e fundamentar o lugar e o papel da poesia na escola. 
Bendita Vitamina!

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