Uma Rosa na Tromba de um Elefante - Um livro a não perder...


A Orfeu Negro acaba de publicar na coleção Mini Orfeu, o livro de António José Forte (AJF), Uma rosa na tromba de um elefante. Este curioso livro, editado em 1971 pelas edições Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello, na coleção Cabra-Cega (onde se publicaram livros de Maria Alberta Menéres (Conversas com Versos), Mário Castrim (Histórias com juízo), Alice Gomes (Giroflé giroflá), entre outros), constituído por 19 poemas, vive, como nota Herberto Hélder a propósito da poesia de Uma faca nos dentes (2003), outro livro do surrealista AJF, «da subversão das ideias, das imagens de arrepio, da tensa e lúcida atenção que é dada a um quotidiano». As primeiras palavras do livro, uma dedicatória em verso, pelo estender do destinatário não só à (filha) Gisela, mas a todos, conhecidos e desconhecidos, pequenos e crescidos, confirmam-no:

«Este livro é da Gisela
e de todas as meninas e meninos
conhecidos e desconhecidos
pequenos e crescidos
amigos dela»

Herberto Helder, no prefácio a Uma faca nos dentes (2003), escreve que a poesia de António José Forte «não é plural, nem direta ou sinuosamente derivada, nem devedora. Como toda a poesia verdadeira, possui apenas a sua tradição. (…). Não se trata de modo ou moda, forma ou fórmula, acidentalidade ou incidentalidade. Fala-se da inteligência fundamental do mundo». Nesta, nada escapa no limite estrito do verso ou da imagem, nada se mostra excessivo ou desnecessário, porque as palavras revelam a tensão dialética entre o cultivo aturado e exigente da palavra e da metáfora e uma perversão do ‘discurso’ poético e a utopia ideológica, anarquizante e de matriz claramente surrealista, evidente, do ponto de vista formal, nas estruturas estróficas e rimáticas livres (apesar da presença regular da rima) e na inexistência de pontuação e, do ponto de vista temático, na abordagem extravagante das temáticas abordadas.
No que a este aspeto diz respeito, julgámos ser possíveis identificar alguns eixos temáticos que, pelo conteúdo e pelo cuidado tratamento, merecem alguma da nossa atenção reflexiva.
Assim, a partir do título do livro, há o ciclo dos animais, em que estes são protagonistas, muitas vezes em interação com a natureza ou com o homem: a borboleta amarela e a borboleta do arco-íris, o cavalo, o elefante, a pulga e o cão, o coelho, a sereia e a estrela-do-mar, o cágado, as pombas encarnadas. A este título, e como exemplo da simbiose entre forma apurada e conteúdo nonsensical, veja-se o poema «Uma rosa» que, como se depreende, oferece o título ao livro:

«Um dia nasceu uma rosa
na tromba dum elefante

mesmo no nariz dum gigante
uma rosa é sempre elegante

porém o que é que acontecia?
como a rosa era branca
e o elefante branco era
ninguém sabia
que havia
uma rosa elegante
na tromba do elefante

quando o elefante contente
erguia a tromba a baixava
parecia mesmo
que aquela rosa voava

mas um dia
o elefante adoeceu
ficou de tromba caída
e a tal rosa
que parecia que voava
desfolhou-se
desapareceu»

Há o ciclo da História de Portugal, consubstanciada de modo explícito em poemas como «História da navegação» e D. Pedro e implicitamente em outros como «A torre de Pisa» e «O ilusionista».
Encontramos ainda o ciclo dos quatro, pequeno inciso de quatro poemas breves em que se brinca, de maneira desconcertante, com os provérbios e aforismos. Atente-se, a título exemplificativo, no primeiro dos poemas deste ciclo:

«Na Feira da Ladra
há um cão que não

que não ladra
já se sabe

cão que não ladra
morde

dizem que sim

mas há também
quem não concorde»

Significativo é também o ciclo das bicicletas, composto por seis poemas genericamente intitulado «As Bicicletas» acrescido de um sétimo, «Uma bicicleta branca». Neste ciclo, a liberdade formal e técnico-compositiva exponencia, a nosso ver, a densidade plurissignificativa, assente numa imagética abundante e desconcertante. Veja-se, como exemplo, o poema «Uma bicicleta branca»:

«Em Amesterdão
cidade da Holanda
há uma bicicleta branca
que pertence a mil poetas

quero eu dizer
que nenhum poeta
tem nenhuma
e todos têm uma bicicleta

é por isso que eu acho
que as bicicletas
são os automóveis dos poetas»

Finalmente, e de forma transversal a toda a obra, há o que podemos designar como o ciclo de intervenção e que, em certo sentido e de feição velada, com recurso ao fantástico e ao nonsense, introduz questões, de índole política e social, pertinentes e que se prendem com o estado do país, governado por um homem muito velho que «quando tirava o chapéu alto, alto / ficava à vista o coelho // o velho dava um salto / ficava à vista a careca / do homem já muito velho» e com um sistema política que não é fiel à história mas a reescreve em seu favor («afinal quem tem razão / a mãe de Cristóvão Colombo / ou os homens que escreveram / a História da Navegação?»).
Expoente exemplificativo deste ciclo é o poema conclusivo, intitulado «Alice em Lisboa»:

«Quando Alice chegou do País das Maravilhas
e atravessou o rossio
montada num crocodilo
como era de calcular
ninguém a viu

e apesar de ser uma menina
era uma pessoa importante
mas não veio a notícia nos jornais
e sobretudo Alice não cheirava a gasolina

foi por isso talvez
que ninguém a viu
nem novos nem velhos

Alice atravessou o rossio
disse adeus
e entrou no País dos Espelhos»

Apesar da brevidade do texto, muitos são os problemas mordaz e humoristicamente abordados: o estatuto da mulher («e apesar de ser uma menina / era uma pessoa importante»), a crítica a uma comunicação social não livre («mas não veio a notícia nos jornais»), a preocupação excessiva pelo capital («e sobretudo Alice não cheirava a gasolina»), a opressão e estagnação social («ninguém a viu / nem novos nem velhos») onde cada um, para ser socialmente reconhecido, tem de comportar-se por semelhança («Alice atravessou o rossio / disse adeus / e entrou no País dos Espelhos»).

Neste contexto, e em conclusão, Uma rosa na tromba de um elefante é uma coletânea poética que mantêm total atualidade, formal ou tematicamente, desafiando os leitores a uma experiência de leitura surpreendente, a que a exuberante ilustração de Mariana Malhão corresponde magnificamente.

Um livro a não perder!

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