DICA DE LEITURA - De novo, o direito (do leitor) a não ler

Patrícia Marques, a professora, a bibliotecária, a mãe, a leitora compulsiva, nao perde nenhuma oportunidade para motivar para a leitura. Até para motivar os próprios filhos, como relata no seu perfil do Facebook:

Em plena interrupção letiva, voltei ao persistente e convicto discurso de motivação para a leitura, junto de quem mais precisa, cá em casa...
O puto mais novo, verdadeiro nativo digital com 16 anos, atirou sem rodeios e à queima-roupa:
- Ó mãe, já te disse que não perco tempo a ler um livro! - exclamou acrescentando:
- Eu sei que tu queres que eu leia. E como eu preciso de um dinheirinho, tenho uma proposta a fazer-te...
- Vá, diz lá qual é? - perguntei eu, já a ver o filme todo.
- Eu leio um livro e tu pagas-me. Por exemplo, um cêntimo por cada página. Os livros que eu ali tenho E GOSTO DE LER têm 300 páginas. Por isso, dás-me 3€ por cada um e ficamos quites.
- Oh, rapaz, por quem és! Negócio fechado!!! - rebentei eu de contentamento face a uma proposta verdadeiramente modesta.
- Isso não é justo, mãe! - lamentou a irmã gémea (e com razão!), protestando da seguinte maneira:
- É que eu leio e nunca ninguém me deu dinheiro por isso!
Bom, vou ter de ser justa! E atirar-me irremediavelmente para a falência!
Se for para manter viva a chama da LEITURA... :)

O episódio é verdadeiramente enternecedor e diz-nos, antes de mais, que é preciso ter cuidado com as nossas estratégias de promoção da leitura, porque LER é um ato livre e deliberado, que não deve ser motivado por nenhum outro interesse senão pelo prazer, utilidade ou conveniência da própria leitura, como aliás bem refere a irmã gémea. Além disso, a leitura (presume-se, de literatura) não pode ou deve acomodar-se às tirânicas leis do mercado ou da bolsa de valores, sob pena de, à falta de prazer, matar de vez o gosto pela leitura. Deve reconhecer-se, desde “os direitos do leitor” de Pennac o direito a não ler, o que, diga-se, é um direito que só assiste, de facto, a quem lê, ou seja, é leitor. Ainda assim, reconhecer o direto a não ler não dispensa nenhum mediador de leitura de virar costas ao persistente e convicto discurso de motivação para a leitura.
Refira-se, ainda e em abono da verdade que, em contexto familiar, pagar 3€ para que um filho leia um livro de 300 páginas (e se for daqueles que ele gosta de ler tanto melhor!) talvez não seja de todo um mau negócio (comparado com outros que a parentalidade reclama) nem talvez conduza à falência...
Parabéns Patrícia, pela partilha do episódio familiar e pela persistência e convicção (que a tantos falta!) na motivação para a leitura.

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