Pascoaes e Brandão: uma amizade pessoal, espiritual e intelectual

Mais do que um sentimento pueril, a amizade é um mistério que abraça pessoas de latitudes existenciais, políticas e filosóficas muito distintas e as atira para um caminho comum que as (e nos) engrandece. É o caso da amizade entre Teixeira de Pascoaes e Raul Brandão.
Tudo começou no ano de 1914, quando Brandão dirige, a 27 de março, uma carta breve a Pascoaes para lhe dar conta da impressão que lhe causou a leitura do livro Verbo Escuro. Brandão, que diz ter lido o livro «dum fôlego», acrescenta que o livro «há de ser compreendido por  poucos leitores. É o livro dum grande poeta e dum filosofo». Dois meses depois, é Brandão que  recebe  uma carta  do autor  de Maranus, datada de 29 de Maio, a acusar a recepção  do livro  El-Rei  Junot, considerando-o «admirável» e «um grande Drama» e prometendo dedicar-lhe um  artigo  n’A  Aguia, o que vem  a suceder no n.° 31. A partir desta data, a troca epistolar, que  se  prolongará  até à morte de Brandão, mostra uma mútua admiração, evidente sobretudo nas cartas de agradecimento pela recepção dos livros recém-publicados ou reeditados.  As  apreciações, sendo de um modo geral lacónicas, testemunham sobretudo uma cumplicidade intelectual que não se confunde com o elogio fácil  e circunstancial e,  também, uma empatia espiritual,  que se aprofunda  no  convívio  fraterno. É, aliás, no contexto desta cumplicidade intelectual que surge (e se compreende) o projeto de coautoria da obra dramática Jesus Cristo em Lisboa.
À amizade espiritual e intelectual acresce a estima pessoal: estes dois vultos da literatura visitaram-se frequentemente. Ou era Pascoaes que ia à Casa do Alto, na freguesia de Nespereira, em Guimarães, ou era Brandão que vinha a S. João de Gatão.  Vinha ou era trazido.  Sim, porque, certa vez, Pascoaes, alarmado com o estado de saúde depressivo do amigo, foi buscá-lo, e à sua mulher, para um longo período de descanso curativo do Marão. Terá sido nesta estadia que Brandão iniciou a sua “carreira” de pintor. Uma das irmãs de Pascoaes meteu-lhe uma paleta nas mãos e disse-lhe: “O Raul vai hoje pintar comigo e vamos começar por uma vista do Marão. – Mas que ideia! Eu nunca pintei, nunca peguei num pincel. – Vai começar hoje. Quem pinta com a caneta, pinta com o pincel.” Essa primeira pintura ficou no escritório de Pascoaes e deve estar no espólio de Pascoaes (na posse da Câmara Municipal, segundo apurámos).
Pascoaes e Brandão partilhavam ainda o horror ao frio, o que os levava a, durante o inverno, rumar a Lisboa.alojavam-se na York-House, às Janelas Verdes, numa pensão com ambiente familiar, onde privaram com amigos e conhecidos, tornando esse o lugar de encontro para longas cavaqueiras intelectuais, em que participavam Jaime Batalha Reis, Justino de Montalvão, Eça de Queirós, entre outros.  Ambos eram, também, assíduos frequentadores da Brasileira. Sentavam-se numa mesa ao fundo, rodeados de amigos e curiosos admiradores, como, por exemplo, Aquilino Ribeiro, José Gomes Ferreira, Rodrigues Miguéis e Vitorino Nemésio. A 12 de abril de 1923, foram ambos eleitos sócios correspondentes da Academia de Ciências de Lisboa. Mais tarde, quando por razões de saúde, Brandão teve de procurar casa própria, partilhou a residência com Pascoaes, em Campolide.
Quando a 05 de dezembro de 1930 Brandão faleceu, Pascoaes sentiu-se abalado, como relata em carta do dia seguinte à irmã Maria da Glória: “Cá vim encontrar o Raul Brandão morto, com a esposa desolada (...). Demorei-me com a Miquelina, até às oito da manhã. Descansámos até à uma hora e voltámos para junto do querido morto que foi o melhor amigo que tive em Portugal e um dos maiores intérpretes da Dor Humana. Às três horas saiu o enterro, com meia dúzia de pessoas, debaixo de uma chuva constante. No cemitério, um cavalheiro de exótica figura, pede a palavra para dizer só três palavras: "Foi um bom!" E aqui tens o elogio fúnebre do maior escritor de Portugal!"
Talvez a amizade destes homens, de ofício comum, nos desafie a pensar e a descobrir que o que somos e fazemos também se tece das relações que construímos... Ou não?

Crónica publicado no jornal Notícias do Tâmega, de 19 de abril de 2018 

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