O Melhor do Mundo

Publico aqui a crónica deste mês no 
Jornal Notícias de Amarante
porque amanhã é o Dia da Criança

Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás das grades de silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.

Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.

Neste poema, extraído do livro Os olhos das crianças (de 1963), Sidónio Muralha reivindica dos poetas (de todos, afinal, porque de poeta e louco todos temos um pouco) uma atenção particular para com as crianças. Como se esta atenção constituísse um imperativo ético, uma exigência interior em que todos são artífices no grito e na construção de um mundo novo, marcado pela paz e pelas mãos dadas. A paz que é de «todas as crianças da terra, de mãos dadas, de mãos dadas, de mãos dadas», como escreve no livro Todas as crianças da terra (1978). As mãos dadas são um traço comum da figuração da infância, como se (só) às crianças fosse inerente a capacidade de dar as mãos, de construir futuro: «Sim, um dia, as crianças, as mulheres, os homens, darão a volta ao mundo de mãos dadas». Construir um mundo mais bonito - entenda-se, mais justo e fraterno - é tarefa de adultos generosos e das crianças: «Com adultos que são assim generosos e as crianças que vão lutar para que o mundo seja mais bonito do que é, o dia de amanhã será melhor» (Terra e mar, vistos do ar, 1981). Esta confiança sem reservas nas crianças reside no facto de o poeta as considerar sementes, fontes e vida, e, nesse sentido, dignas da sua confiança: «As crianças são sementes, fontes, e a vida voltará a ter sentido. Sim, acredito em vocês». E não é desencarnada ou comprometida, funda-se na convicção de que as crianças são capazes de corrigir os erros do presente e abrir-se ao futuro. As crianças solicitam o grito por elas e, nesse grito, são sementes e fontes para o futuro, capazes de dar as mãos na construção de um mundo mais bonito, um mundo de paz. Podemos dizer que o «imperativo ético» que levou Sidónio Muralha a escrever para (e sobre as) crianças transforma-se no «princípio esperança» como dinamismo de utopia, a utopia da paz e de um mundo social, política e ambientalmente diferente e justo.
Outros poetas, como Maria Rosa Colaço (especialmente o livro Não quero ser grande, 1993) e sobretudo Matilde Rosa Araújo e o seu labor de “feitora” de antologias de textos sobre as crianças (como, por exemplo, As Crianças, todas as crianças (1979) e A Infância Lembrada, 1986) emprestaram algum do seu engenho criativo e cívico para erguer a voz em defesa das crianças.
Muito recentemente, tive oportunidade de coordenar uma antologia com a participação de 18 poetas (4 galegos e 1 brasileiro) intitulada Os direitos das Crianças – Antologia Poética (2018). Apesar de nela não constar qualquer introdução, prefácio ou posfácio (por desnecessário), o propósito da mesma é lapidar e evidente: erguer a voz e defender, de novo, mais uma vez e sempre as crianças. Os seus direitos estão reconhecidos, de jure, pela Declaração dos Direitos da Criança, de 1959 e pela A Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989 (ratificada por Portugal em 21 de setembro de 1990), mas o que se impõe perguntar, neste Dia da Criança, é (e ter de perguntar, por si só, já é revelador da gravidade da situação): os direitos da criança estão garantidos e são respeitados de facto?

João Manuel Ribeiro

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